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Sérgio Rodrigues conversa sobre o ofício da escrita

Autor mineiro participa do Sempre um Papo hoje em BH, quando fala sobre 'A visita de João Gilberto aos Novos Baianos', seu livro de contos mais recente.

O mineiro radicado no Rio de Janeiro, Sérgio Rodrigues fala com humor sobre escritores.
O mineiro radicado no Rio de Janeiro, Sérgio Rodrigues fala com humor sobre escritores. (Cia das Letras/Divulgação)

Por Pablo Pires Fernandes
Repórter DomTotal
Depois de o brilhante romance O drible, o jornalista e escritor Sérgio Rodrigues lançou o livro A visita de João Gilberto aos Novos Baianos, com seis contos e um folhetim. Com temas e linguagens distintas entre si, o escritor passeia por diferentes episódios da ficção e da realidade, fundindo elementos concretos de um e de outro à sua criatividade.
O pai da bossa nova divide uma moqueca com os Novos Baianos à sobra da visão de um disco voador; Capitu, personagem do clássico Dom Casmurro, revela seus momentos íntimos, um padre acompanha angustiado a trama dos inconfidentes mineiros. São três textos bem diferentes, mas que carregam em comum o domínio de linguagem e o humor. Em outros três, o autor experimenta textos breves ou brevíssimos, que formam um mosaico e trazem a escrita, o papel do leitor e a própria literatura como temas. O livro se encerra com um folhetim publicado no jornal francês Le Monde, agora reunido em forma de novela.
Rodrigues estará nesta terça-feira em Belo Horizonte para lançar o livro e falar sobre literatura, o processo de escrita e seu mais recente trabalho. Ele participa do Sempre um Papo, às 19h30, de uma conversa com o público na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro). O evento tem entrada franca.
O autor afirma que escrever é “um ofício que exige muita dedicação, muita solidão, muita angústia”. No entanto, reconhece ser uma necessidade imperativa. Leia a seguir a entrevista concedida ao Dom Total:
Em seu livro, a linguagem de cada conto se adapta ao contexto ou ao tema. Como vê esta ideia de estilo?
Ter estilo, se você é um escritor de verdade, é inevitável. Mas entendo estilo como Mário Quintana o definiu: “Limitação que faz cada escritor só escrever como pode”. Isso vai muito além do torneio verbal, dos tiques de vocabulário e sintaxe que um escritor possa cultivar, do registro culto ou popular que ele use. Gosto de escrever com vozes variadas, o que nos meus livros anteriores resultou em dois ou três narradores e agora, na Visita..., se radicalizou. Faço isso primeiro porque, para citar Quintana, eu posso, sei escrever com uma variedade de vozes. Segundo, porque me interessa trazer essas diferentes linguagens para dentro do jogo. É uma forma de desnaturalizar a prosa literária, fazer o leitor parar para pensar: quem narra isso? Por que narra desse jeito? Gosto de explicitar o caráter de artifício da literatura, sem deixar que isso interfira com o prazer do leitor ao avançar na história. É claro que o trabalho com registros variados não pode ser uma coisa gratuita: seria o fim da picada ficar fazendo embaixadinhas, puras exibições de domínio textual. Tem que buscar o gol. No fim das contas, é sempre a história que escolhe a voz do narrador que vai contá-la.
Desde O drible, nota-se certo sarcasmo com os personagens e, ao que parece, com o narrador/autor. Como vê a presença do humor, da ironia e do sarcasmo em sua obra?  
O humor é uma presença forte no que eu escrevo desde meu primeiro livro, O homem que matou o escritor. É como eu sei fazer, uma espécie de impressão digital. Um bom exemplo, aliás, de como a noção de estilo vai muito além do plano verbal. O humor é parte do meu estilo, da minha limitação no sentido quintanesco. Dele eu não conseguiria fugir nem se quisesse. E não quero. Considero o humor poderoso na arte e na vida. Fico bobo de ver gente que estudou, que leu muito, acadêmicos de verdade, dizendo que o humor é um recurso menor. Aí você se lembra de alguns dos maiores escritores da história, moradores da cobertura do edifício canônico: Cervantes, Shakespeare, Machado, Joyce, Borges... Todos humoristas de primeira. Acho isso muito engraçado.
Em vários contos, você utiliza elementos das novas tecnologias, mas também faz referências à própria literatura e sua tradição. Como lida com a metalinguagem?
Esse é outro traço de estilo que eu não conseguiria evitar mesmo que quisesse. Não gosto muito da palavra “metalinguagem”, que acho meio besta e desgastada, mas da ideia eu gosto: a linguagem refletindo sobre si mesma. A literatura que mais me interessa sempre tem em alguma dose essa consciência de ser texto. O pós-modernismo gastou a metalinguagem, tanto a palavra quanto a coisa ficaram associadas a um maneirismo. Isso é verdade, mas não acho que seja motivo para condenar o recurso, pelo contrário: temos o desafio de revigorar a metalinguagem, aprimorar, fugir das armadilhas. Recursos literários gastos existem para que a gente os revitalize. A reflexão sobre a linguagem sempre acompanhou a escrita, de uma forma ou de outra. Abrir mão dela seria uma perda grande demais, e acho que nunca vai acontecer.
Seus diálogos são geralmente sucintos e surpreendentes. Como faz este uso da palavra entre o oral e a escrita?
Aprendi a escrever diálogos com Nelson Rodrigues. Meus diálogos eram ruins, soavam falsos e declamativos, até o dia em que parei para estudar as peças do homem. No dia seguinte eu sabia escrever diálogos. Foi exatamente assim, como virar uma chave. É um conjunto de técnicas. Você tem que simular a oralidade, reconstruí-la como escrita. É sempre uma estilização, nunca uma transcrição direta do oral. A quem se interessar, meu conselho é um só: estudem as peças de Nelson Rodrigues.
Você já afirmou que a escrita e o ofício de escritor são como uma maldição da qual não pode se livrar. Qual ou como é este sentimento que lhe empurra para a literatura?
Não quero romantizar nada. Escrever é antes de mais nada um ofício, um trabalho. Demanda uma inclinação, um certo jeito para a coisa, sem dúvida, mas muito suor também. Quando eu disse que é uma maldição, estava me referindo ao fato de ser um ofício que exige muita dedicação, muita solidão, muita angústia e que oferece, de modo geral, recompensas magras em troca. O que me empurra para a literatura eu não saberia dizer o que é, mas sei que, se não escrever, vou me sentir incompleto. Meu processo de escrita não é muito organizado, embora eu viva disso e todo dia me sente diante do computador para escrever alguma coisa, seja jornalística ou literária. Planejo muito, mas cumpro pouco o que planejei. Tem sempre uma ou muitas descobertas ao longo do caminho. Teria pouca graça se não fosse assim.
Como tem visto a atual produção literária do país?
Falando de ficção literária, que é a minha praia, acho que estamos num momento positivo para a produção, com alguns livros muito bons saindo do forno em estilos variados, e ao mesmo tempo num momento fraco e confuso para a digestão dos nutrientes todos, meio raso ou equivocado na reflexão, frequentemente omisso na discussão desses livros. Claro que isso é uma generalização, tanto na ponta da criação quanto na da recepção. No todo, eu diria que hoje, por razões variadas que daria algum trabalho destrinchar, nossa literatura está melhor que nossa crítica.

A VISITA DE JOÃO GILBERTO AOS NOVOS BAIANOS
De Sérgio Rodrigues
Companhia das Letras
148 páginas
R$ 44,90 e R$ 23,90 (digital)

SEMPRE UM PAPO
Lançamento e bate-papo com Sérgio Rodrigues
Quando: Nesta terça-feira (13), às 19h30
Local: Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro)
Entrada franca

Redação Dom Total

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