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100 anos de Estrigas: programação com familiares e amigos relembra a trajetória do artista cearense


Cinco anos após sua partida, Estrigas permanece a cada dia mais presente nas lembranças daqueles que desfrutaram do seu convívio. Por ocasião do centenário do artista, debates, exposições, lançamento de livro e homenagens ocupam a cidade a partir de hoje (19)


Estrigas parece ainda estar ali. Ele corre para abrir o portão e receber as visitas, senta sobre o tronco do baobá que plantou no sítio do Mondubim e caminha por entre os quadros expostos em todos os cômodos da casa-museu. Os movimentos espontâneos são descritos na fala daqueles que o conheceram e as palavras ajudam a presentificar um artista centenário, apesar de, essencialmente, atemporal. 
Nilo de Brito Firmeza completaria 100 anos exatamente nesta quinta-feira (19), e não resta dúvida de que, se aqui ainda estivesse, a comemoração se daria no lar que ele compartilhou com a amada Nice por mais de meio século. Aliás, foi ali que alguns sobrinhos e sobrinhos-netos se reuniram, dois dias antes desta data, para recordar as mil faces de um homem que foi dentista, artista, professor, crítico e historiador da arte cearense, mas também tio-avô. 
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Estrigas semeou uma história gigante a exemplo do seu baobá
Foto: Fábio Lima
José Maria, 88 anos, Cecília, 82, e Cláudia, 62, são os que guardam as lembranças mais antigas. Visitavam o Minimuseu Firmeza quando ele ainda nem tinha esse nome. A casa era dos avós, seu Hermenegildo e dona Bárbara, os pais de Estrigas. “Isso aqui era um negócio meio longe, meio utópico. A gente pra vir pra cá se despedia da família. Até logo... Pra onde vai? Vou pro Mondubim. Não tinha ônibus, o trem passava aqui só uma vez por dia”, conta José Maria, e Cecília confirma: “É mesmo, Zé. Nesse instante o metrô passou e eu fiquei me lembrando daquele tempo do trem, que agora a gente não vê mais”. 
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Sobrinhos e sobrinhos-netos do artista no Minimuseu Firmeza
Foto: Fabiane de Paula
Apesar de mais nova, Cláudia se identifica com as memórias dos outros dois. “A gente chegava e ganhava a vida aqui nos trilhos. Lembro de muita vaca, da gente dando manga pra elas. Mas depois que minha avó morreu, perdemos mais o contato e só vim retomar com Yuri, meu filho, também artista”, explica. Estrigas passou a morar no Mondubim após a morte do pai, em 1961. “Vir pra cá como ele veio, na época em que ele veio, não era fácil não. E um camarada que era formado e tinha um consultório de odontologia montado na Rua Barão do Rio Branco. Largou tudo isso pra vir pra cá, morar com a mãe”, contextualiza José Maria. 
A verdade é que a profissão de dentista nunca foi uma escolha dele.
Nascido de uma família de classe média alta, com pai ilustrado, irmãos que se destacaram na vida pública cearense, não poderia ter apenas o ensino fundamental. Ele era curioso demais, tinha biblioteca em casa, e foi ser dentista para ter um curso superior e suprir sua subsistência. Sabia das dificuldades de viver de arte em Fortaleza, e não queria sair daqui”,
explica o amigo e pesquisador Gilmar de Carvalho, “adotado” pelo casal de artistas alguns anos mais tarde. 
A casa do Mondubim logo se tornou “o umbigo do mundo” para Estrigas. Avesso a viagens, dizia encontrar tudo do que precisava ali. Especialmente depois do casamento com sua amada Nice, companheira de uma vida toda que conheceu na Sociedade Cearense de Artes Plásticas (Scap), vinda de Aracati para estudar e trabalhar em Fortaleza. 
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O casal Estrigas e Nice Firmeza era apaixonado pelas artes e também pela natureza que os cercava
Foto: Thiago Gaspar
Da linhagem de sobrinhos-netos, o engenheiro Sérgio, 63, foi um dos que ainda percebeu alguns deslocamentos do tio-avô, quando ele ia passar férias no sítio de um irmão em Caucaia. “Era muito parecido aqui com o Minimuseu, talvez por isso ele gostava de frequentar”, acredita. Esse também era o motivo para Sérgio visitá-lo com frequência. 
Sentia-se em casa, mas vivia cheio de curiosidade para descobrir algumas coisas, como o significado de um quadro em particular, exposto na parede de entrada da casa. “Quando perguntei, ele me deu uma aula de arte. Disse: ‘Você olha pra esse quadro e deixa sua mente viajar, se estimular e vagar’. Eu não entendia nada de arte e comecei a entender”, conta, em tom de agradecimento. 

TIO-ARTISTA

Segundo a sobrinha-neta Suzana, 56, Estrigas foi, para além das questões emocionais e familiares, a referência de uma outra realidade. “A gente era uma família tradicional, de profissionais tradicionais, e aí vem aquele artista maluco, que larga tudo, que vai morar no sítio, que não tem televisão, que não viaja, que não tá preocupado com dinheiro, nem em agradar a família. Nice e Estrigas, além de serem uns queridos, trazem uma lembrança muito importante de que a gente pode ser uma outra coisa, pode ousar, pode quebrar regras”, defende a produtora audiovisual.
Essa independência do tio-avô é uma das coisas que mais chama a atenção de Rachel Gadelha, 56, produtora cultural e uma das herdeiras do Minimuseu Firmeza. “Tem algo que eu admiro e que, pra mim, é a herança eterna: o grau de autonomia dele. Tio Estrigas nunca se rendeu a nada que ele não acreditasse”, pontua.
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Detalhe da obra de Estrigas
Foto: Francisco Sousa
Em consonância com essa observação, Gilmar de Carvalho o define como um homem discreto, tímido, mas que não se omitia.
Falava baixo, mas dizia o que precisava ser dito. Tinha horror ao ‘empavonamento’. Fazia seu trabalho longe dos holofotes. Tinha um senso crítico muito acentuado e uma grande compaixão pelos homens e mulheres. Não conciliava com mesquinharias, baixarias, e fraudes. Lia muito, e isso me impressionava. Fazia uma obra que não se inscrevia nos modismos. O que pintava, desenhava ou trabalhava com aquarelas, era eterno, atemporal”, analisa.
O artista visual Bené Fonteles, outro “filho”, destaca a contribuição que essas características da personalidade de Estrigas deram a sua formação artística. “Não separar a arte da ética e a estética da poética. Sua obra toda tinha isso, com uma clareza além da subjetividade, porque ele era isso em mente e alma, numa coerência quase absoluta”, diz.
Rachel reconhece no tio-avô uma pessoa que viveu na simplicidade a vida inteira. “O valor dele, a moeda dele era de outra natureza”. Pequenos causos ilustravam muito bem isso. O desprendimento dele ao doar inúmeras obras do amigo Aldemir Martins ao Museu de Artes da UFC (Mauc) é um exemplo. Outro era o pedido de presentes que ele fazia aos sobrinhos que viajavam à Europa. “Era a nossa preocupação”, lembra José Maria. “Teve uma vez que ele pediu um lápis número tal da marca tal... Rapaz, pense num lápis difícil pra achar, mas a gente conseguiu. Ele era assim. Olha o presente, menos de um euro. Pra você ver a simplicidade”, completa o sobrinho-neto Sérgio.
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Detalhe do ateliê do artista, preservado no Minimuseu Firmeza
Foto: Fabiane de Paula
No último ano de vida, 2014, Estrigas vivia preocupado com o que iria deixar. As idas frequentes da sobrinha Cecília com as filhas Patrícia e Raquel Gadelha para o Minimuseu deram-lhe um direcionamento. “Quando a tia Nice se foi, ele se dedicou a organizar o legado dele. Nesses mil pensamentos, chegou a uma conclusão. Escolheu quatro irmãos, e desses irmãos quatro herdeiros”. Rachel herdou a faixa de terra que engloba a casa, e que ela reconhece hoje como um dos primeiros centros culturais da cidade, quando ainda nem se falava a respeito.
“Ele disse: ‘Rachel, você tente viabilizar o Minimuseu. Depois de uns três anos, se não der nada certo, desista, venda tudo, acabou!’. Algumas vezes eu até já quis esmorecer, e tenho até autorização dele, mas enquanto eu puder fazer isso aqui permanecer, eu farei”. E vem fazendo. A casa será um dos palcos de comemoração do centenário de Estrigas, que também será celebrado em outros pontos da cidade. A imagem do casal anfitrião, ao que tudo indica, ainda permanecerá viva por muitos e muitos anos.
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A imagem de Estrigas e Nice permanece muito viva na memória daqueles que os visitaram no Minimuseu Firmeza
Foto: Francisco Sousa

TRAJETÓRIA

1919
Nilo de Brito Firmeza nasce em Fortaleza no dia 19 de setembro, filho de Hermenegildo Brito Firmeza e Bárbara Brito Firmeza 1935-1942 Cursa o ensino fundamental e o pré-médico no Liceu do Ceará. Nessa época, recebe o apelido de "Estriguine", em referência a um artista circense
1947
Conclui o curso de Odontologia da Escola de Farmácia e Odontologia do Ceará
1950
Inicia o curso de desenho e pintura da Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP). Passa a ser chamado de "Estrigas"
1953
É eleito presidente da SCAP e ajuda a captar o apoio da Prefeitura para o Salão de Abril
1957
Tem sua primeira mostra individual, na Livraria Renascença
1961
Casa-se com Nice e muda-se para o sítio da família Firmeza, no Mondubim. Participa do 10º Salão Paulista de Arte Moderna, em São Paulo; e integra exposição coletiva que inaugura o Museu de Arte da UFC (Mauc)
1969
É criado o Minimuseu Firmeza. No mesmo período, Estrigas publica "Arte: Aspectos Pré-Históricos no Ceará (Ioce)". Nos anos seguintes, publicaria outros livros e participaria de mais exposições individuais e coletivas
2010
Recebe o Troféu Sereia de Ouro do Sistema Verdes Mares, em reconhecimento pelo seu potencial artístico e pela contribuição dada à história das artes plásticas cearenses
2014
Estrigas falece, no ano seguinte à partida da amada Nice Firmeza. É lançado o livro "NicEstrigas - arte e afeto", de Bené Fonteles.

PROGRAMAÇÃO DO CENTENÁRIO

19 de setembro
Abertura da Exposição "100 Estrigas", no Mauc (Av. da Universidade, 2854 - Benfica), às 18h30, com entrega do Diploma Estrigas a personalidades da cultura cearense e lançamento do livro "A Grande Arte de Estrigas - Memória Crítica", de Gilmar de Carvalho
20 de setembro
Abertura de exposição com trabalhos produzidos por idosos dos lares Francisco de Assis e Torres de Melo, no Minimuseu Firmeza (Rua Waldir Diogo - Mondubim), às 9h
21 de setembro
Café do Zé especial em homenagem ao centenário de Estrigas, no Sobrado Dr. José Lourenço (Rua Major Facundo, 154 - Centro), às 10h.
26 e 27 de setembro
Ciclo de palestras no Porto Iracema das Artes (Rua Dragão do Mar, 160 - Praia de Iracema), com Ângela Gutiérrez, Gilmar de Carvalho, Auto Filho, Paula Machado e Olga Paiva, sempre às 15h.
28 de setembro
"O Baobá apresenta", no Minimuseu Firmeza, com rodas de bordado, artes plásticas, visitas guiadas e apresentações artísticas, de 9h às 13h.

Diário do Nordeste

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