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Em 'Todos os santos', Adriana Lisboa reflete sobre o perdão

O trauma causado por uma morte desperta nos personagens a reflexão sobre dor, superação e evocam reflexões existenciais.
No novo romance, Adriana Lisboa faz a personagem indagar sobre os efeitos de um trauma.
No novo romance, Adriana Lisboa faz a personagem indagar sobre os efeitos de um trauma. (Lucero Photography)

Por Jacques Fux*
Onde começa uma vida e uma história? Em cada história e vida, quantas fronteiras são ultrapassadas, quantas se multiplicam e quantas se interrompem bruscamente? Quantas chamas e somas não fecham, quantas se dissolvem? O que pode ser esquecido, o que deve ser lembrado e o que de fato conseguimos superar? Do que sofremos por não entender e o que pode passar a fazer sentido quando é resgatado da espuma do esquecimento? Do que lemos, o que fica e o que vai embora, talvez para sempre? Qual o poder da criação inventiva e do perdão?
Em Pardonner: l'impardonnable et l'imprescriptible, Jacques Derrida escreveu: “Porque o perdão implica, talvez, a entrada no jogo, como por hipótese, a entrada em cena do terceiro que, no entanto, ele deve ou deveria excluir. Em todo caso, segundo o bom senso mesmo, ninguém parece ter o direito de perdoar uma ofensa, um crime, um erro cometido no lugar de algum outro. Não se deveria jamais perdoar em nome de uma vítima, e sobretudo se ela está radicalmente ausente da cena do perdão, por exemplo, se ela está morta. Não se pode pedir o perdão aos vivos, aos sobreviventes, para os crimes dos quais as vítimas estão mortas. E por vezes os autores também. Estaria aí um dos ângulos desde os quais abordar todas as cenas e todas as declarações de arrependimento e de perdão pedido”.
O novo livro de Adriana Lisboa se propõe a refletir e perscrutar, em nome de um terceiro, sobre esse perdão – ou, ao menos, a compreensão pelo seu desaparecimento e por toda dor que ele causou. A autora, na voz de sua narradora Vanessa, conta o evento traumático pelo qual duas famílias – a sua e a de seu amigo/amor André – passaram. Profundamente abalados por uma morte e um luto não totalmente elaborado, esse evento sempre retorna e se reinicia à procura de uma compreensão a posteriori para, quem sabe, superar o fim da dor.
Sobre o evento traumático, Alain Badiou disse: “O evento é de um regime diferente das ações e paixões do corpo, mesmo que resulte delas” e “uma vida é composta de um único e mesmo Evento, sem toda a variedade do que acontece com ele”.
Vanessa narra o trauma em toda sua variedade e apresentando todas as veredas e travessias que dele surge. Ela tenta entender seu passado e a história de seu irmão mais novo, melhor amigo de André – agora, seu companheiro amoroso – que, muito jovem, sofre um acidente na piscina e morre antes que alguém possa socorrê-lo. Vanessa e André – e também suas famílias – ficam extremamente ligados por conta dessa grande perda.
No momento da narrativa, vivendo na Nova Zelândia como bióloga, Vanessa procura por suas reminiscências, pelas lacunas e falhas, e busca se perdoar pelo que aconteceu com o irmão, com sua família e com a família de André. A narradora, diante da descoberta de um grande segredo que coloca em risco toda a história tecida pelo trauma, tenta ainda recontar, reviver e compreender seu romance com André – seus encontros, desencontros, amores e outras dores. Muito é revelado, muito é superado e muita dor é poeticamente escrita.
Vanessa sempre se dirige ao André em busca de superação/redenção: “O que fica da gente. O que permanece de você na impermanência da nossa vida juntos, essas flores secas que catamos uma vez no deserto de Rangipo. O lugar das roupas no armário. O seu lado da cama. No final das contas, o que fica é o valor de cada hora, você não acha, André? O pigmento ocre soprado pelos neandertais sobre a parede de uma caverna. A concha e o osso de um peixe na estrutura de um sambaqui. A galinha do ensopado brasileiro que, assim como o cachorro do ensopado chinês, queria continuar viva. Tudo travessia. O corpo que perdeu uma terra agora perde outro corpo. Seria possível você não ter ido embora? O que eu precisaria ter feito, ou desfeito, ou refeito, para que você não fossem embora?”
Com uma bela prosa poética, Adriana Lisboa tece uma narrativa que viaja entre as memórias e os fatos, entre os limites da invenção e da narrativa com imagens e construções delicadas e sensíveis. Uma escrita que apresenta os começos, as fronteiras, as vidas, memórias, amores e dores múltiplas em busca de compreensão/perdão e também da própria tessitura literária.

TODOS OS SANTOS
De Adriana Lisboa
Alfaguara
152 páginas
R$ 49,90 e R$ 34,90 (e-book)

*Jacques Fux é matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.

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