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Romance de Paulo Scott é político sem ser panfletário

Com grande habilidade narrativa, escritor mostra em 'Marrom e Amarelo' as contradições da cultura e da sociedade brasileira
O gaúcho Paulo Scott narra a história de dois irmãos de cores e personalidades diferentes.
O gaúcho Paulo Scott narra a história de dois irmãos de cores e personalidades diferentes. (Renato Parada/Cia das Letras)

Por Jacques Fux*

Em 2015 uma inteligência artificial – machine learning – concebida pelo Google para reconhecimento de imagens e padrões, identificou/nomeou um casal de jovens negros como “gorilas”. O erro foi atribuído ao software responsável por “aprender” a reconhecer lugares, pessoas e objetos nas fotografias, mas que acabou se “confundindo”. O que acontece com essas “máquinas” é que elas reproduzem e catalisam “vieses” – preconceitos e tendências arraigados na sociedade. Treinadas com uma base de dados gigantesca, apesar de terem um acurácia grande na identificação de imagens e padrões, por vezes, erram de forma grotesca por reproduzirem hostilidades presentes na cultura e na sociedade – o principal banco de informação no qual a inteligência artificial é treinada.
Pensemos nesse fatídico caso – que não é o único e nem o último – e imaginemos o que poderia acontecer com um software desenvolvido para avaliar e classificar a “raça” e a “cor” dos candidatos que se candidatariam a “vagas” para cotistas – em substituição à autodeclaração (e de seus problemas). Será que esse programa de computador reproduziria/acirraria o padrão racista e velado da sociedade? Os critérios, analisados por ele, seriam mais justos e corretos que a autodeclaração? O que ele estaria escondendo e, ao mesmo tempo, revelando sobre a sociedade e a cultura? Em Marrom e Amarelo, Paulo Scott vai a fundo nas questões raciais, culturais e sociais, que, além de subjetivas, refletem pensamentos e teorias tanto dentro como fora dos grupos étnicos.  
Scott, com domínio narrativo acurado – podemos comprovar isso nos longos parágrafos sem pontuação, mas que não deixam o leitor se perder –, discute os “vieses” sociais e culturais presentes na cultura brasileira, embora exista uma tentativa de esconder e negar tal tipo de racismo. Em seu mais recente romance, o autor gaúcho se dedica às questões da militância política ao construir a relação de dois irmãos que nasceram com diferenças de “cores” – um chamado pelo pai de Marrom e o outro de Amarelo. Federico, o mais velho, com fenótipo mais claro, e Lourenço, mais jovem e com pele retinta. Assim como o autor e seu irmão, os personagens do livro cresceram no bairro Partenon, longe da zona central, e sentiram literalmente na pele a discriminação racial.
Federico – narrador do romance, pesquisador da hierarquia cromática entre peles, conhecido como colorismo/pigmentocracia – é um militante das causas da juventude negra; e Lourenço, é treinador de basquete em um clube da cidade. Os irmãos, além da diferença visível, também têm personalidades muito diferentes: Federico é grande, calado e se recorda de um passado recalcado que lhe irrompe e desperta reminiscências raivosas; Lourenço é bonito, mais leve, joga basquete e é “muito gente boa”.
Também neste livro, Paulo Scott prova porque é um mestre da narrativa. A construção catártica de algumas partes é de tirar o fôlego, porém, sem tirar a atenção e o suspense do livro. Esse tipo de construção demanda um grande esforço e um enorme controle do texto e da trama – características de um grande escritor que prioriza o poder e a força da literatura “em si”. Apesar do livro ter sido lançado em 2019 – momento em que os assuntos tratados estão em cena e no foco das publicações das editoras – Scott já vem trabalhando com essa questão em livros anteriores.
Em uma entrevista ao Blog do Luciano Trigo, Scott comenta sobre a literatura ter um cunho social – o que ele discorda: “Penso que uma obra literária não deva ter esse compromisso. Muitos leitores se decepcionam com essa minha resposta, mas, de fato, não acho que a literatura tenha de ser crítica, politicamente engajada – tenho enorme receio da chamada literatura produzida sob propósito do protesto, com a missão de protestar. Literatura não pode ser panfletária, o fato de eu ser um cidadão sensível às tragédias sociais brasileiras e militante, um ativista, não me autoriza, na condição de escritor de narrativa longa de ficção, ou mesmo como poeta, a produzir uma literatura politicamente engajada. Isso não pode ser primordial, não para mim. Não fiz isso com o Habitante irreal, não fiz isso com o Marrom e Amarelo, que são, ao que tudo indica, meus livros mais fáceis de serem recepcionados e apreendidos sob o rótulo de literatura política. Penso que a construção de uma boa história não pode ser reduzida a um alvo específico, à intenção de fornecer respostas, interpretações, soluções; a arte é sempre mais do que isso, deve se colocar além disso. Respeito a posição de quem pensa o contrário, mas como escritor é nesse entendimento que me localizo”.
Talvez o verdadeiro ofício do escritor seja o de vislumbrar aspectos e pontos cegos da sociedade e da cultura. A partir do seu incômodo, estranhamento e de seus mais profundos questionamentos podemos nos atentar para novas ideias e propor outras reflexões. Marron e Amarelo nos convida a pensar alguns vieses sociais e nos presenteia literariamente com estruturas, frases e palavras de um artífice da ficção.

MARROM E AMARELO
De Paulo Scott
Alfaguara
160 páginas
R$ 49,90 e R$ (digital)

*Jacques Fux é matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.

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