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Estalos e baques que me perseguem

Pablo Pires Fernandes*
Foi um estalo, não soube identificar na hora. Acordei assustada e me pus sentada na cama num movimento involuntário. Hoje, neste mês de outubro de 2019, fazem 16 anos. Agora escrevo não por gesto de coragem, nem para acusar ninguém, mas para tentar silenciar o estalo, para ver se assim consigo me livrar deste tormento, desse pesadelo que me persegue há tantos anos.
Depois do estalo, atenta a qualquer ruído, ouvi um baque. Era o som de um corpo caindo no chão. Foi quando me dei conta que aquele estalo era um tapa no rosto e o baque era o corpo da minha mãe batendo de encontro ao piso da copa. Seguiu-se um silêncio, parecia interminável.
Até que escutei a voz dela. Era grave e a determinação, nunca me esquecerei, só poderia ser de uma mulher forte como minha mãe. “Não encoste a mão em mim”, falou com uma serenidade que continha ódio e ironia, coisas que meu pai não imaginava e nem era capaz de entender.
Os sons que ouvi, muda e trêmula, do meu quarto, ainda me perseguem, ouço-os em sonhos e, às vezes, mesmo acordada, nas horas menos esperadas. Por isso escrevo, preciso me livrar deles, são como correntes arrastadas por fantasmas. Só que os fantasmas são meu pai e minha mãe.
Nada foi dito. Porém, depois da frase dela, foram baques graves, respirações ofegantes e, então, tudo se calou no escuro. Eu escutava só uns latidos distantes e o murmúrio citadino normal, a rua estava calma.
É evidente, agora. Depois de 16 anos é mais fácil. Aos 8 anos, porém, era incapaz de entender tudo aquilo. Lembro-me apenas de minha mãe desviando o rosto do meu olhar espantando e curioso. Do silêncio e da indiferença do meu pai ao se sentar à mesa do almoço. Ninguém interrompeu a mudez durante a refeição, apenas os garfos e facas batendo nos pratos e o ruído ruminante do torresmo da boca do meu pai.
Agora consigo, ou tento nesta escrita, concatenar todas as lembranças. Preciso enfrentá-las e as palavras é o que tenho à mão. Passei muitos anos sem saber o que fazer, nem mesmo compreendia direito. Só que os sons insistiam.
Outro episódio, muitos anos depois, me faz entender tudo melhor. Ao menos, é assim que vejo o passado neste momento. Eu já era adolescente e cheguei em casa de madrugada. Entrei devagarinho, sem alarde. No corredor, meu pai me esperava e acho que nunca aquela figura me pareceu tão grande.
Ouvi palavras horríveis até que minha mãe surgiu e segurou o braço dele, prestes à bofetada. “Você pode até me bater, mas não levante um dedo contra a minha filha.” Foi imperativa e ele saiu andando para a sala. Ela me abraçou, me levou pra cama e fechou a porta do quarto. Eu ouvia a respiração dela atrás da porta. Ficou ali até ele passar rumo ao seu quarto. 
Saí de casa poucos meses depois. Nunca mais vi meu pai, nem tenho saudade daquele babaca. Encontro com minha mãe às vezes no Centro, depois do nosso expediente. Ela diz que não apanha mais, “só é agressivo quando bebe”. Depois desses encontros, saio deprimida e triste por ela e por mim. No meu caso, nem é por ter vivido aquilo tudo ou por continuar ouvindo aqueles sons ainda hoje, tantos anos depois. O que me dói é não conseguir perdoá-lo.
*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

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