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Macunaíma 2019

O segredo da longa vida é a lerdeza, ficar olhando a paisagem, sentir o cheiro da chuvarada.
Eu morro de tédio de mercados financeiros, ações nessas bolsas furadas, planejamentos financeiros e de carreiras a curto, médio e longo prazos.
Eu morro de tédio de mercados financeiros, ações nessas bolsas furadas, planejamentos financeiros e de carreiras a curto, médio e longo prazos. (Pixabay)

Por Ricardo Soares*
Vou assim a ganhar meu dindim, glosando, passando, olhando, espiando, vazando, viajando pelo meu país de muito mais de sete pedras, muito mais de sete mares, muito além de sete palmos, um país de tantos lugares onde posso armar a rede e, trepado no jirau de paxiúba, apreciar o movimento dos barcos, dos carros, dos caminhões e das bagagens que sobem e descem rios e estradas a levar tanta tranqueira a portos e paragens, rodoviárias e ribanceiras, despenhadeiros e periferias e, diante desse quadro muitas vezes de paisagens feias e remotas, eu vou tecendo meu glossário de histórias distribuídas por dias, por meses, por anos, salvo os enganos das mentiras e trapaças e os momentos em que paro para decepar cabeça de saúva.
Hoje comi cação com pirão, vi o mar de dentro quebrar no mar de fora, vi uma vazante bonita e um pôr de sol graúdo e aí então deixei de tomar meu copo de cólera e olhei por cima uma porção de malocas estreitas, becos e quebradas de um mundaréu urbano que veio do mundaréu rural e aí lembrei de acender uma lamparina para iluminar minhas vergonhas que andam por demais escondidas.
Ainda hoje tenho preguiça e, quando ela chega assim ligeira, cheiro a flor do maracujá, boa demais para dar um sono sem sobressalto. Depois acordo disposto, pego um pedaço de cará em qualquer armazém da vida e sigo na lida do pouco fazer e do muito contar, onde procuro não misturar rapa de rapadura com açúcar ligeiro para não azedar o caldo. Quero dizer que não falo dos políticos do dia e nem procuro comparar esses caboclos ruins com os do passado, porque senão o azedume solidifica e as minhas fibras entornam para um pessimismo que não deixa enxergar o quanto tem de bom tanta andança pelo país que pode ser da bonança.
Nem dentro da noite eu fico veloz e peço até pro pai de terreiro que me alumie e me deixe lento porque a pressa é inimiga da perfeição, a pressa mata, escoa, petrifica o coração, congestiona os miúdos que temos por dentro, a barrigada toda, os fios dos intestinos, tira o ponto da broa, do pão de queijo, da linguiça, do queijo curado e da carne de sol. O segredo da longa vida é a lerdeza, ficar olhando a paisagem, sentir o cheiro da chuvarada caindo no campo de estio.
Ainda agora eu ouvi um bacurau, um tiê-sangue, uma andorinha que sozinha faz o seu verão e corri para uma capoeira, ao lado de uma ingazeira e daí masquei raiz de cardeira para enfrentar melhor dias vindouros, longe de maus agouros. Completei o ritual passando urucum no corpo, mascando gengibre com fumo de corda e fiquei lembrando desses profetas dos fins de mundo que, com túnicas sujas e puídas, rezam para os santos dos dias, sejam eles Antonios Conselheiros ou Virgulinos Lampiões.
Não sou velho por isso ainda pago passagem inteira. Mas para isso, visitar tantos destinos, necessito de ganhar uns trocos que vêm justamente de eu contar histórias e fazer o elogio de minhas próprias preguiças. Eu morro de tédio de mercados financeiros, ações nessas bolsas furadas, planejamentos financeiros e de carreiras a curto, médio e longo prazos. Não vou planejar porque não sei quanto tempo vivo. Não vou planejar porque vou viver só mesmo é uma vida, essa mesmo bem vivida e bem sentida e cheio de minguadas proporções e de maçarocas de cabelos onde se escondem os piolhos que atrapalham e os cheiros que anuviam. Sigo o boto e sigo o sol. Chupo limão cravo, passo pó de café nas feridas, faço um guisado de anta, vou moquear uma capivara, bater bumbo e dançar o kuarup, ajudar a tirar a lona do velho caminhão e sacudir a poeira do terreiro. Abro o dia comendo tapioca de queijo coalho, respirando fundo a brisa do mato e achando que nada , mas nada mesmo, é melhor do que a floresta.

*Ricardo Soares é diretor de TV, escritor, roteirista e jornalista. Publicou oito livros, dirigiu 12 documentários.

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