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Não seja alienado, mas sábio

A alienação da vida e da história impede um autêntico testemunho do Evangelho
Acompanhar o ritmo da vida e do vivido e não se alienar da realidade é acorrer a uma sabedoria que nos faz protagonistas de nossas histórias
Acompanhar o ritmo da vida e do vivido e não se alienar da realidade é acorrer a uma sabedoria que nos faz protagonistas de nossas histórias (Priscilla Du Preez/ Unsplash)

Tânia da Silva Mayer*
Os acontecimentos da vida devem servir de ensinamento para bem vivermos com os outros no mundo. Por isso, os antigos sempre nos ensinaram a importância de aprender as lições que os fatos nos proporcionam. A sabedoria consiste na elaboração do vivido e na transformação que esse processo poderá promover.
O cristianismo, nessa esteira, ensina aos cristãos a cultivar uma atenção para com a vida. Por isso, é preciso estar atento aos sinais dos tempos e discernir os acontecimentos cotidianos. Essas atitudes são necessárias porque o Reino é uma realidade emergente, mas que também requer o esforço e o trabalho disponível das pessoas de anúncio do Evangelho em todas as situações e relações para que se efetive no já e no agora do mundo.
Vivemos numa sociedade da informação. Tornamo-nos consumidores de notícias das mais diversas. Elas chegam pelo celular a cada minuto, estão nos rádios e nas televisões, são trazidas por nossos vizinhos e amigos. Somos protagonistas de diversas situações cotidianas ao longo da vida. E o que não acontece conosco acontece com alguém próximo ou distante. Desse modo, percebemos nosso pertencimento ao mundo e como somos afetados por tudo o que acontece. Mas pode ser que muitos de nós estejam tão voltados para si mesmos e absorvidos por uma espécie de virtualização que já se torna impossível ler as situações, perceber os sinais e, sobretudo, discernir os acontecimentos, apreendendo o que realmente importam e significam para a vida.
Quando não é possível essa reflexão, deixamos de aprender com os fatos e perdemos a oportunidade de crescermos pessoalmente e também de transformar nossas relações e o mundo em que vivemos. Do ponto de vista da fé cristã, essa alienação da vida e da história impede um testemunho do Evangelho capaz de favorecer a dinâmica do Reino em nossas realidades.
Por essa razão, os cristãos não devem se eximir da desafiadora tarefa de se deixar confrontar pela vida em sua dinâmica. Muitas vezes, por medo desse salutar confronto, perdemos a oportunidade de anunciar efetivamente o Evangelho e nos tornamos reféns de posturas fundamentalistas que testemunham contra a própria fé em Jesus Cristo. É preciso recordar que essa atitude sapiencial de atenção para com os acontecimentos é praticada pelo próprio Deus que ouve o clamor e vê o sofrimento do seu povo e toma a atitude de vir até esse para libertá-lo, pois conhece sua peleja (cf. Ex 3,7). E não há proximidade maior que a própria encarnação, na qual Deus se lança na aventura da história ficando irremediavelmente afetado pelos acontecimentos cotidianos.
Nesse sentido, acompanhar o ritmo da vida e do vivido e não se alienar da realidade é acorrer a uma sabedoria que nos faz protagonistas de nossas histórias, é permitir se balizar pela própria fé cristã, que vê na vida acontecendo o campo fecundo para a edificação do Reino de paz e justiça de Deus.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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