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O leitor que se perdeu e redescobriu o que é ler

De uns tempos para cá, descubro que não estou mais lendo páginas de papel, mas só as do computador.
A verdade é que meu universo literário encolheu, minguou, recolheu-se ao mundo virtual, reduziu-se a quase nada.
A verdade é que meu universo literário encolheu, minguou, recolheu-se ao mundo virtual, reduziu-se a quase nada. (Pixabay)

Afonso Barroso*
Amigos, socorro! O computador está me tirando o hábito de ler livros. Creio que este deve ser um mal generalizado, um vírus endêmico espalhado pela web, a atacar o mundo inteiro de leitores e não apenas a minha indefesa pessoa.
Sempre fui um sujeito fiel aos meus princípios, um dos quais era ler sempre e tudo. Lia rigorosamente todos os dias. Li de romances memoráveis a novelas idiotas, como uma do dramaturgo Augusto Boal, que se meteu a escritor e perpetrou o livro com o título de A Deliciosa e Sangrenta Aventura Latina de Jane Spitfire. Deliciosa? Que nada. Sangrenta, talvez. Mas simplesmente intragável. Mesmo assim, eu li.
Percorri quase todos os romances por mim adquiridos no tempo em que editoras, especialmente a Abril, lançavam coleções para venda nas bancas de revistas. Foi neles que sorvi histórias e versos extraídos da imaginação de um Victor Hugo, um Voltaire, um Sheakespeare, um Machado de Assis, um José de Alencar, um Graciliano Ramos, um Guimarães Rosa, um Raimundo Correa, um Olavo Bilac e muitos etcéteras.
De uns tempos para cá, descubro que não estou mais lendo páginas de papel, mas só as do computador. Nada de romances, nada de peças de teatro, nada de contos ou novelas, nada de poesias. Só notícias e comentários sobre as notícias, posts longos ou pequenos, pobres ou aproveitáveis, amenos ou escatológicos. Não tenho saco para ler e-books, que me cansam a paciência e as vistas. Ler um romance não é coisa pra se fazer diante de uma tela, e sim em qualquer lugar da casa onde se possa sentar confortável ou solitariamente, como no trono do banheiro.
A verdade é que meu universo literário encolheu, minguou, recolheu-se ao mundo virtual, reduziu-se a quase nada.
Alarmado com essa constatação, estou decididamente disposto a voltar à leitura do que deve ser lido, ou seja, p-books, livros de papel. Quero ler romances impressos. Quero obras de autores que no seu tempo não tinham computador. Escreveram, muitos deles a caneta-tinteiro ou a pena de ave mesmo, as mais belas páginas da literatura nacional e mundial.
Sim, continuarei lendo notícias, opiniões, gracejos e bobagens na tela do computador. Continuarei postando comentários sobre os mais diversos assuntos no Facebook. Mas decidi reservar de novo um tempo para os livros. Vou ler autores que ainda não li e também reler alguns, porque em muitos casos vale a pena percorrer mais uma vez, ou mais de uma vez, os caminhos que eles generosamente nos abriram em prosa ou poesia.
Um dos livros com o qual dei início a esta nova fase da minha velha atividade como leitor me foi emprestado e recomendado pela amiga Vera Carvalho, dona do amigo Badu e também amante das letras. É o romance A Roda da Vida, da médica e escritora suíça Elisabeth Kubler-Ross, que eu só conhecia de nome. Essa mulher foi uma espécie de Irmã Dulce do primeiro mundo, cuja canonização nós, os leitores, temos a obrigação de realizar no nosso Vaticano particular após ler sua obra.
Enquanto isso, estou de olho no Brás Cubas do Machado, meio esquecido ali no canto da prateleira. O vaqueiro Fabiano, do Graciliano Ramos, também está por aí. Vejo mais à esquerda o Augusto Matraga, do Rosa, acolá os reis barbados do J. J. Veiga e o coronel Aureliano Buendia, de García Márquez. Olho pra eles e aviso: Ah, meus caros, vocês não me escapam. Vou revisitá-los qualquer hora dessas. Me aguardem.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

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