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Escrever para ficar rico

'Coachs' literários dão dicas de como ganhar dinheiro com livros como se o propósito de escrever fosse ficar milionário


Monteiro Lobato dizia que um país se faz com homens e livros
Monteiro Lobato dizia que um país se faz com homens e livros (Adolfo Félix/ Unsplash)
Ricardo Soares*
O Brasil sempre foi um país onde nunca se teve especial apreço aos escritores e muito menos aos leitores. Somos dos países que menos leem no mundo e agora, na época do mais ignorante dos nossos presidentes, o tal apreço fica ainda mais longe. Isso posto e diante dessas circunstâncias me pergunto se por aqui mudou a literatura ou mudamos eu, tu, eles, nós todos que mal ou bem passamos perto dela.
Justifico o raciocínio que abre essa crônica por conta de espantosas correspondências que recebo no meu e-mail dando conta de uma visão cada vez mais mercantilista da literatura. Receitas de “coachs” literários e quejandos que “ensinam” como ganhar dinheiro com livros, como se dar bem escrevendo em 10 ou poucas lições como se o único propósito de escrever fosse ficar milionário. Vocês poderão dizer que isso é sinal dos tempos, mas é estarrecedor.
Uma dessas “consultorias literárias” elaborou uma lista (cuja fonte não citam ou então criaram das próprias telhas) de 10 autores nacionais vivos que faturaram mais de R$ 1 milhão com seus livros e aí vejo que não entendo mais nada do riscado porque dos 10 nomes listados só conheço a metade. Sendo que desses cinco que conheço três são referências de literatura de no mínimo gosto duvidoso como os intragáveis textos infanto-juvenis do Pedro Bandeira ( sim, aquele que está reescrevendo Monteiro Lobato pelo viés politicamente correto) e a tal Thalita Rebouças, um prodígio de lugares comuns embalados em situações clichês para auto ajuda de adolescentes. 
A “milionária” lista dos consultores abre com um texto que é um primor de má redação o que nos faz perguntar: o que um autor teria a aprender com esse tipo de professor? Vejam: “Nesse artigo buscamos dar lugar a autores desconhecidos para uma boa parte das pessoas. Quem não tem muito contato com a literatura e o mercado editorial pode se surpreender. Muita gente quando pensa em muitos livros vendidos pensa em Paulo Coelho, é um clichê. E não preciso dizer que é claro que Paulo Coelho não está nessa lista. Outra característica é a idade dos autores, a maior parte é jovem, tendo 3 bem mais velhos ao final. No artigo todos faturaram ao menos 1 milhão em direitos autorais requisito do título..., no entanto outros foram muito além disso”. Vocês entenderam o raciocínio da parte que fala do clichê do Paulo Coelho ?
Mesmo assim prefiro que as pessoas estejam lendo Pedro Bandeira ou Thalita Rebouças do que não ler nada. O que me incomoda mesmo é associar literatura a um possível enriquecimento fácil. Isso é tese vigente senão consultorias como essa não vicejavam e nem estaríamos diante de listas (quaisquer delas) de mais vendidos que são o supra sumo da estultice. 
O bom e velho Monteiro Lobato (que tem a obra esculachada pelos Bandeiras da vida) dizia que um país se faz com homens e livros ou ainda que “quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”. Eu sigo a sina de escrever não como missão ou algo semelhante. Escrevo porque preciso como diria o poeta Leminski. Só lamento não ter encontrado o mapa da mina para ganhar um pouquinho mais. Vai ver é porque sempre estive do lado errado da força.
*Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários

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