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Estudantes nordestinas combatem machismo com literatura de cordel

Marcelo Testoni
Colaboração para Universa
13/01/2020 04h00

Estudantes do ensino médio de uma escola em Cascavel, município com 85 mil habitantes no interior do Ceará, descobriram uma forma criativa de colocar em pauta o feminismo e as várias formas de discriminação. Para isso, elas passaram a produzir literatura de cordel, típica da região, baseada nesses temas.
O projeto, batizado de Dice, em referência à deusa grega da justiça, não tem tido impacto apenas na Escola Estadual de Educação Profissional Edson Queiroz, onde estudam. Com ele, as alunas conseguiram trazer os temas para o debate e mudar algumas dinâmicas escolares e até detalhes do currículo escolar.
Graças à iniciativa, a escola foi finalista da premiação nacional Desafio Criativos da Escola 2019, promovida pelo "Design for Change", movimento global que estimula crianças e adolescentes a expressarem sua criatividade por um mundo melhor.
A ideia surgiu em 2017, depois que um grupo de meninas com entre 15 e 18 anos começou a questionar em aula o porquê de a escola não fomentar discussões sobre empoderamento feminino. Muitas delas relatavam enfrentar situações de machismo cotidianamente.
"Como trabalhamos o tema 'cidadania', resolvi ceder um momento de minhas aulas para debatermos esse assunto", diz Claudio Simplício, professor de filosofia e sociologia. "O problema é que alguns alunos não se interessavam muito, achavam o assunto complexo e entediante. Então decidimos pensar em uma solução conjunta, que conquistasse a todos."
A notícia logo se espalhou entre as turmas e, de maneira espontânea, mais alunas se mobilizaram. Com orientação do professor Claudio, decidiram que usariam o cordel para discutir de maneira didática os diversos papéis da mulher na sociedade e combater situações de preconceito, opressão e assédio.
"Mais do que ganhar nota, queríamos fazer as pessoas ao nosso redor refletirem sobre como o machismo é algo grave", relembra Francisca de Miranda, ex-aluna da escola e uma das idealizadoras.
Sala de aula feminista

No começo, a mudança promovida na escola não agradou a todos e foi recebida até mesmo como uma afronta. "Tivemos de enfrentar relutâncias, como a de alguns pais e até de membros da escola, que achavam a iniciativa ofensiva. Mas, depois de dialogar e apresentar nossas propostas para a gestão, conseguimos apoio e até mesmo alguns meninos se juntaram a nós. Dessa maneira, as meninas puderam divulgar o projeto em outros colégios da região", explica o professor Claudio.

Na escola Edson Queiroz, as alunas organizaram rodas de discussão e troca de experiências para tratar, por exemplo, sobre as várias formas de machismo, como identificá-lo e como combatê-lo. A partir desses encontros, elas criaram uma apostila em cordel com informações sobre como identificar e combater o machismo.
Além disso, conseguiram a inclusão de pensadoras e pesquisadoras no material didático que estudam em sala de aula. Assim, passaram a estudar, além de teóricos masculinos, nomes Hannah Arendt, Angela Davis e Viviane Mosé.
Nem o calendário escolar escapou delas. O Dia Internacional da Mulher, por exemplo, passou a ser debatido não só em 8 de março, como durante todo o ano letivo. E a escola também alterou sua programação para a semana da pátria. No lugar dos tradicionais desfiles, foram promovidos debates, que também incluíram temas como ética, homofobia e racismo. Como no final do ano havia também um projeto sobre cultura afro, o aproveitaram para trazer as mulheres negras para o centro das discussões.
A importância do cordel
O cordel não foi escolhido por acaso. Literatura tradicional do sertão nordestino, a linguagem carrega, em suas narrativas, histórias baseadas na realidade local. "O machismo é uma cultura que vai passando de geração em geração, assim como o cordel, que é uma cultura do nordeste, e que algumas vezes trata a mulher como objeto. Ao utilizá-lo, despertamos o interesse dos ouvintes, e, ao mesmo tempo, combatemos o machismo", explica Francisca.
O professor Claudio explica que combater o preconceito e trabalhar a questão de gênero ainda é um grande desafio nas comunidades, porque, por trás delas, agem facções criminosas e grupos religiosos com forte presença e atuação. "Apesar das dificuldades, as alunas cordelistas têm avançado e algumas já formadas levaram nossa discussão para as universidades e voltam para palestrar na escola. Se começamos timidamente, hoje posso dizer que impactamos centenas de vidas e estamos quebrando paradigmas".
Fonte: Universa

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