Anúncios Parceiro Magalu - Erigleissonevoce

O beijo da mulher grisalha

Por um curto momento nossos olhares se cruzam e tenho a ligeira impressão de que são cúmplices na esperança de que dias melhores virão


Parece que a mulher grisalha de traços suaves e boca ligeiramente curvada para baixo tem todos os dentes permanentes
Parece que a mulher grisalha de traços suaves e boca ligeiramente curvada para baixo tem todos os dentes permanentes (Ravi Patel/ Unsplash)
Ricardo Soares*
Dentro de um vagão de metrô uma mulher grisalha olha para mim. Não é um olhar de flerte. É uma constatação. É verão e diante dela estou eu, um homem de cabelos grisalhos também. Por um curto momento nossos olhares se cruzam e tenho a ligeira impressão de que são cúmplices na esperança de que dias melhores virão. Ela deve ter por volta da minha idade e se nota que pegou menos aclives do que declives pela estrada. Como eu.
Parece que a mulher grisalha de traços suaves e boca ligeiramente curvada para baixo tem todos os dentes permanentes. Diferente de mim que mal conservo os sobressalentes e os escovo com muita pressa porque tenho sempre a sensação de que acordei atrasado, de que calculei mal os juros do cartão de crédito e que jamais aprendi a afiar facas.
O metrô parece andar mais lento hoje e fico tentando adivinhar a trajetória da mulher de vasta cabeleira grisalha. Professora de antropologia? Diretora de escola alternativa? Terapeuta ocupacional? Uma daquelas que por tabela gritou nos anos 70 “meu nome é Gal?”. Tudo parece vago, impreciso, mas gostaria de saber muito a história de cada fio dessa cabeleira grisalha.
De repente o metrô dá um leve tranco. Passa agora sobre um elevado, um raro trecho onde não está sob a terra. Vejo que começa a chover e percebo com estrondosa certeza o quanto essa cidade é feia, quase inabitada de sentimento. Por isso não me constranjo, levanto, vou até a mulher grisalha e lhe tasco um beijo na boca no momento em que percebo que ela chora de mansinho. Ela correspondeu àquele beijo e desceu na estação Rodoviária rumo a um destino impreciso para o qual eu não fui convidado.
*Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Publicou 8 livros e dirigiu 12 documentários

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Corpo do Jornalista Carlos Heitor Cony deve ser cremado na terça-feira

Morre o acadêmico Murilo Melo Filho

‘Ideias para adiar o fim do mundo’ e entrar na lista