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O ex-presidiário que virou escritor e hoje é presidente da Academia de Letras de Maracanaú

Há 30 anos, o escritor Francisco Siqueira de Lima, 70, voltou a experimentar as viradas dos anos em liberdade. Mas nem sempre foi assim. Por 11 anos, o hoje presidente da Academia Maracanuense de Letras, em Maracanaú (Ceará), conta que “perdeu” as festas de Réveillon porque estava encarcerado entre presídios do Rio de Janeiro e em Fortaleza.
É por isso, narra Siqueira de Lima com convicção, que pedir por “liberdade” é o principal desejo repetido por ele nas últimas três décadas de existência de alguém que experimentou o sistema penitenciário brasileiro. “Estou livre há 30 anos e não há volta, irei me manter assim até os últimos dias de minha vida”, firmou consigo.
Antes liderar uma academia literária em um dos municípios mais violentos da Região Metropolitana de Fortaleza, o também motorista aposentado cumpriu pena em regime fechado por ter sido flagrado assaltando a mão armada no estado fluminense e, depois, ter praticado um homicídio, no Ceará. “Foram tempos de inferno e, lógico, arrependimento. Peço perdão, todos os dias, por ter prejudicado alguém”, ressente.
Na conversa, Siqueira de Lima divide os capítulos da jornada. Um deles mudou de “a travessia da fase de erros” para a “emboscada da poesia”. Foi quando descobriu a “palavra como possibilidade de transformação” de uma narrativa esgueirada por quase 13 anos entre penitenciárias, a obrigação de prestar conta durante a liberdade condicional e o perigo de voltar ao crime.
Não retornou. Pelo caminho, tanto encontrou quem só o enxergava como assaltante e assassino quanto quem apostou nos pontos de viragem. “Para cada um que me discriminou, sempre apareceu outro que confiou em mim”, reconhece.
Um desses personagens que acreditou, hoje já falecida, foi Eunísia Barroso. Uma das mais atuantes coordenadoras da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Fortaleza, cepa da árvore do cardeal dom Aloísio Lorscheider – que por tempos foi arcebispo de Fortaleza e um dos bispos mais importantes no contraponto à ditadura militar e civil do Brasil (1964-1985).
Em várias viradas de ano, Siqueira de Lima, dona Eunísia Barroso e outros egressos do sistema carcerário do Ceará partilharam do Grupo de Apoio ao Apenado Mahatma Gandhi (GAAMG). Um projeto, de 1994, concebido para acolher e reencaminhar ex-presos (e familiares) no (re)convívio com uma sociedade pouco crédula no capítulo que trata sobre ressocialização de detentos.
TRAVESSA DO BOI
Siqueira de Lima não diz, mas o corpo dele que dança – braços e mãos longas – e uma boca cheia de palavras dizem que o principal turning-point ou ponto crucial foi ter virado escritor. A alta autoestima o puxa e o faz, se não a pessoa mais importante da humilde Travessa do Boi, no bairro Jereissati 3, em Maracanaú, pelo menos uma das mais respeitadas pela vizinhança trabalhadora e de pouca escola dali.
Parte do município, meio rural e meio industrial, reconhece o esforço do escritor e de seus companheiros imortais de Academia de Letras pelo estímulo à escrita e à leitura em Maracanaú. Quarenta alunas e alunos, de várias escolas da rede pública de lá, participaram de um concurso de texto que rendeu a publicação da Antologia Florescer da Cultura e, por conta da iniciativa, da criação da Academia Maracanuense do Amanhã.
Por tempos, Siqueira de Lima só palestrava sobre a experiência do cárcere e dos anos de violência que experimentou e cometeu. Para servir de exemplo contrário. Hoje, ainda debulha o assunto onde o convidam para prosear, mas prefere reescrever o enredo com o feito de ter virado um autor. O primeiro livro, Mãos ao alto, vozes da prisão, editado pela Edições Paulinas, em 1986, foi uma ponte para “retornar ao mundo de forma diferente”.
Só percebida, recorda o ex-preso do IPPOO, quando o jornalista Demócrito Dummar propôs republicar o livro com um novo título. Em 1998, a Fundação Demócrito Rocha, numa de suas contribuições à ressocialização de egressos, lançou o Vozes da prisão. “Ele disse que eu esquecesse a fase do ‘mãos ao alto', isso já tinha passado. Agora, era distribuir poesia e mensagem em favor da vida”.
Siqueira de Lima é autor de quatro livros (com reedições) e de cinco cordéis. Um deles, "O dragão malcriado ou o sinal dos tempos", foi premiado num concurso literário nacional promovido pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Eleito para presidir a Academia Maracanauense de Letras em 2018/2019, ele foi reconduzido para continuar o trabalho em 2020/2021.
Além do desejo por liberdade em 2020 e até a onde a vida for, o escritor quer conseguir apoio para publicar a biografia do repentista e poeta Geraldo Amâncio. Os trabalhos avulsos e o salário mínimo, concedido via Benefício de Prestação Continuada (BPC) a pessoas pobres com mais de 65 anos, não bancam a literatura que libertou Siqueira de Lima.
OS LIVROS DE SIQUEIRA DE LIMA
1. Mãos ao alto, vozes da prisão, Edições Paulinas, 1986
2. O anjo e o demônio, 1989
3. Vozes da prisão, Edições Demócrito Rocha, 1998 (2ª edição do Mãos ao alto, vozes da prisão)
4. Vozes da Prisão, Edições Demócrito Rocha, 2002 (3ª edição do Mãos ao alto, vozes da prisão).
5. Eunísia Barroso, a louca de Deus, Assembleia Legislativa, em 2013 (uma biografia da ex-coordenadora da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Fortaleza)
6. Eunísia Barroso, a louca de Deus, 2019 (2ª edição)
7. Motorista de A a Z, Editora Koinonia, 2019
8. Cinco cordéis. Um deles o Dragão mal criado ou o sinal dos tempos (2º lugar em um concurso promovido pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos – CPTM)
O Povo

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