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O que pode reverter o declínio das palavras cristãs

As palavras não são apenas para expressar ideias, comunicar, ou simplesmente serem lidas. Pequenas palavras podem alterar o nosso comportamento, quebrar maus hábitos, começar bons hábitos, e afectar a saúde do nosso corpo.
O médico Andrew Newberg e o especialista em comunicação Mark Waldman, no seu livro “As Palavras podem mudar o Cérebro” (Words can change your brain), afirmam que «uma simples palavra tem o poder de influenciar a expressão dos genes que regulam o stress físico e emocional.» Assim, palavras positivas com paz ou amor podem alterar-nos fisicamente, sobretudo ao nível cerebral e suas funções cognitivas. A razão está no impulso dado por essas palavras aos centros cerebrais motivacionais em direcção à acção, desenvolvendo a resiliência, segundo estes autores.
Reparem como pequenas modificações nas palavras que dizemos podem fazer uma enorme diferença. Se quisermos quebrar um mau hábito de consumo para reduzir de peso, em vez de dizermos – ”eu não posso comer gelados” – senão engordamos, podemos dizer – ”eu não como gelados” – que demonstra autonomia e auto-controlo. Outras vezes temos mesmo vontade de dizer – ”nada corre bem!” – quando, se adicionarmos a simples palavra algumas, o sentido muda – ”algumas coisas correm bem, outras não” – relativizando o copo que não está totalmente vazio ou cheio. Também o Papa Francisco alertou para três palavras que começaram a entrar com mais sentido e significado na vida das famílias – ”posso?…desculpa…obrigado” – palavras cuja genuidade pode quebrar barreiras que nos separam. Continuando a pensar nas famílias, um estudo da Universidade de Berkeley observou que os casais que usam mais as palavras nós, nosso demonstram menos sinais de stress do que os casais que usam mais as palavras eu, meu e tu.
A minha experiência é a de que as palavras na linguagem cristã são muito positivas, mas fiquei surpreendido e intrigado quando me apercebi de estarem em declínio nos livros.
A Google possui a maior colectânea de livros digitalizados do mundo publicados desde 1800. Com isso construiu uma ferramenta, o Ngram Viewer, que permite ver a evolução do uso de uma determinada palavra ao longo dos anos. Independentemente da simplicidade da análise, e usando os respectivos termos em inglês, verifiquei o que havia lido no livro do jornalista Jonathan Merrit ”Learning to speak God from scratch” sobre palavras de origem cristã.
Gratidão… em declínio.
Graça… em declínio.
Misericórdia… em declínio.
Sabedoria… em declínio.
Fé… em declínio.
Sacrifício… em declínio.
Honestidade… em declínio.
Porquê?
Será porque Deus deixou de fazer parte das nossas conversas, logo daquilo que vale a pena escrever nos livros?
Será porque deixámos de saber o que essas palavras significam?
Será porque não experimentamos na pele como essas palavras afectam o nosso corpo-mente-espírito? Talvez um pouco de tudo.
O que me pareceu curioso e preocupante foi notar, ao rever o filme da Marvel, Vingadores – Guerra do Infinito, como as palavras gratidão, misericórdia, sacrifício são as usadas pelo vilão Thanos no filme para justificar a sua cruzada de matar metade da população do Universo com a intenção de o salvar. Eu gosto muito do ritmo do filme e do entretenimento que proporciona, mas fiquei perplexo ao ver o grau de deturpação de palavras positivas a justificar o mal que se pretendia fazer. É verdade que há vida que nasce da morte. Esse é o princípio evolutivo que nos trouxe até aqui, mas quando as palavras são usadas fora do seu contexto, gradualmente perdem o seu sentido e significado. Deixam de ser escritas e as palavras perdem o ser valor transformativo. Até que noto a diferença entre as palavras de Thanos e o actos dos heróis desta história.
A afirmação da nossa fé é feita de actos e palavras. Quando há consonância entre os actos e as palavras, damos o testemunho de vida daquilo em que acreditamos. Não se trata de usar as palavras para convencer alguém da nossa fé, mas de entender o seu valor transformativo, seja na vida física, mental, ou transformação da nossa consciência para que seja plena.
Talvez os actos que expressam o sentido e significado das palavras cristãs sejam um modo de reverter este declínio. Vivemos na era da auto-experimentação e cada vez mais se escreve sobre as experiências que fazemos. Se essas experiências traduzirem em vida palavras cristãs como graça, misericórdia, sabedoria, gratidão, estes e outros termos começam a ser os que melhor descrevem o que vivemos. Palavras que vale a pena escrever para inspirar e transformar.

Fonte: https://agencia.ecclesia.pt/portal/
Autor: Miguel Oliveira Panão

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