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Correr na direção dos livros

Vou na direção dos livros e não encontro outra metáfora a não ser a que os compara a "faróis" que iluminam os escuros caminhos da ignorância
Há mais de 50 anos vou na direção dos livros e me cerco deles por todos os lados
Há mais de 50 anos vou na direção dos livros e me cerco deles por todos os lados (Ursula Castillo / Unsplash)
Ricardo Soares*
Na época dos rápidos e sumários julgamentos virtuais podem me julgar pedante, anacrônico ou até exibido, mas, desde há muito tempo, eu vou na direção dos livros. Não como um fim em si, mas como um princípio que começou na primeira infância quando me vi diante de uns livrinhos ilustrados que se chamavam Os pequenos e a Bíblia que contavam com tintas de muita fantasia as aventuras e desventuras de personagens como Moisés abrindo o Mar Vermelho e outras tantas histórias do Velho e Novo Testamento. Depois, lógico, veio Monteiro Lobato o grande “despertador” de leitores e autores por gerações afora e que hoje vem sendo criminosamente reescrito por escritores menores para que se adeque aos tempos politicamente corretos.
Então há mais de 50 anos vou na direção dos livros e me cerco deles por todos os lados achando até agradável esse exercício de ficar conseguindo mais e mais espaço para que todos se acomodem até o meu fim. Sei que estou errado, mas tenho enorme dificuldade de desapegar dos meus livros, inclusive aqueles que já li, muito embora tenha acabado de fazer generosas doações para duas escolas e uma biblioteca pública onde – mal-intencionado – peguei uns volumes em troca que ainda não estavam catalogados como o Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar.
Vou na direção dos livros faz muito tempo e não encontro outra metáfora a não ser a desgastada que os compara a “faróis” que iluminam os escuros caminhos da ignorância que agora virou ostentação no Brasil onde o parvo primeiro mandatário se incomoda com livros que tenham muita coisa escrita. Pobre Tolstoi, pobre Norman Mailer, pobre João Ubaldo Ribeiro que entre tantos outros escreveram “tijolos” fundamentais que, quando muito, serviriam para o primeiro mandatário apoiar suas ferraduras ou um freio de boca que, aliás, lhe cairia muito bem.
Ir na direção dos livros com certeza não me fez um ser humano melhor. Ou talvez tenha feito, porque se me considero intratável muitas vezes imagino o que teria sido de mim se não tivesse lido tanto. E assim fui e irei na direção de volumes novos ou antigos, manuseados ou lacrados sempre à procura de lembranças e histórias de situações e mundos que não vivi. Atualmente estou, por exemplo, visitando Paris e Viena dos anos 1920 com escalas numa cidadezinha do estado americano do Maine e em uma ilha no litoral da Índia entre outros tantos portos seguros e inseguros. Minha pátria, mais que minha língua, é a minha imaginação visitando lugares inóspitos ou lugares que conheço, mas não desvendei as entranhas.
Folgo em saber que essas linhas possam ser lidas por alguns que, como eu, correm na direção dos livros porque eles, definitivamente, têm sido meu melhor abrigo nessa era de pouca razão, muito julgamento e pulverização da sabedoria reduzida ao lugar comum dos clichês e das emoções baratas.
*Ricardo Soares é diretor de tv, jornalista, escritor e roteirista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

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