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Ode à poesia

é o que me salva e me retira da selva selvagem cotidiana e me leva/(e)leva para outras dimensões'
(para)doxo/a da poesia é ser episteme do indizível feito palavra
(para)doxo/a da poesia é ser episteme do indizível feito palavra (Unsplash)
eleonora santa rosa*
em tempos ferozes e aterradores, marcados pela ode ao cinismo, à hipocrisia, à violência, à injustiça, à discriminação, à supressão dos direitos básicos dos cidadãos, à promoção da degradação humana, o meu antídoto pessoal é a poesia, a poesia, a poesia!
é o que me salva e me retira da selva selvagem cotidiana e me leva/(e)leva para outras dimensões, nada ingênuas ou alienadas, antes pelo contrário, lúcidas e imantadas de outros valores, entendimentos, discernimentos, apaziguamentos e esperanças renovadas.
lugar da consciência crítica, da cabeça fria, do coração aceso, da renovação do espírito. espaço de salvaguarda de atos mesquinhos e invejosos, de libertação de jugos e perseguições.
haroldo de campos escreveu um dos mais fortes e intensos poemas em sua defesa. texto predileto, lido e relido inúmeras vezes, em tempos diversos da minha vida, do qual transcrevo alguns fragmentos:

os apparátchiki te detestam
poesia
prima pobre
.....
poesia
fêmea contraditória
te detestam
multifária
mais putifária que a mulher de
putifar
mais ofélia
que hímen de donzela
na ante-sala da loucura de hamlet
poesia
que se desvia da norma
e não se encarna na história
divisionária rebelionária visionária
velada  /  revelada
fazendo strip-tease para seus próprios (duchamp)
celibatários
violência organizada contra a língua
(a míngua)
cotidiana
os apparátchiki te detestam
poesia
porque tua propriedade é a forma
(como diria marx)
e porque não distingues
o dançarino da dança
nem dás a césar o que é de césar
/ não lhe dás a mínima (catulo):
sais com um poema pornô
quando ele pede um hino
....
dizem que estás à direita
mas marx (le jeune)
leitor de homero dante goethe
enamorado da gretchen do fausto
sabia que teu lugar é à esquerda
do louco lugar alienado
do coração
.....
poesia
te detestam
materialista idealista ista
vão te negar pão e água
(para os inimigos: porrada!)
- és a inimiga
poesia
.....
te detestam
lumpenproletária
voluptuária
vigária
elitista piranha do lixo
porque não tens mensagem
e teu conteúdo é tua forma
e porque és feita de palavras
e não sabes contar nenhuma estória
e por isso és poesia
como cage dizia
ou como
há pouco
augusto
o augusto:
que a flor flore
o colibri colibrisa
e a poesia poesia

Poema Ode (explícita) em defesa da poesia no dia de São Lukács (1980)
Haroldo de Campos - Educação dos cinco sentidos – 1985
*Eleonora Santa Rosa é ex-secretária de estado de Cultura de MG e ex-diretora executiva do Museu de Arte do Rio MAR

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