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Amor e quarentena sob o mesmo teto?

Não te queria por perto. Mas ainda hoje sinto que longe também não resolve
A quarentena não ajuda a discernir se amor mesmo é se tolerar sob o mesmo teto ou se guardar pela distância
A quarentena não ajuda a discernir se amor mesmo é se tolerar sob o mesmo teto ou se guardar pela distância (Unsplash/ Soroush Karimi)

Ricardo Soares*
Agora, nesses tempos de quarentena, muitos lamentam ter que estar tão próximos dos seus amores com seus dissabores e sabores. Aí se descobre que é difícil assim conviver no mesmo teto, panela de pressão, válvulas sem escapes. Sempre achei que o melhor de tudo fosse a distância entre os amores para a sobrevivência das uniões. Mas agora questiono isso com força.
Isso porque chamá-la, muita entre muitas, mas, talvez a mais importante, de "estranha criatura" talvez seja injusto ou rancoroso, mas agora, passados esses anos todos, não encontro outra definição. Chegou numa tarde fria para morar na minha casa depois de manter comigo uma relação à distância, cada qual no seu canto. Ofereci guarida para incertos tempos profissionais e você, apesar disso, chegou de cara amarrada, depositando a sua mudança como fardos pesados que deveriam ser leves. Cheguei a imaginar que isso era um primeiro mau presságio. E o tempo provou que foi.
Nos primeiros tempos você reclamou da lonjura da casa, do mato em volta, dos barulhos noturnos e diurnos, de baratas voadoras que vinham no verão, de correspondências antigas e informes de banco que chegavam pelo correio para uma ex-namorada que um dia também morou na mesma casa. Foste ingrata desde a primeira hora, mas isso eu não percebia ou se percebia fingia que não. "Deve ser só gênio ruim" ponderei, apaixonado, esperando, em vão, os segundos tempos mais brandos que nunca vieram.
Abaixei a guarda, aprumei e desaprumei, enviesei, me guardei e me recolhi, a tudo recorri para que o lance desse certo.  E aí resolvi depositar na areia do tempo essa maçaroca de lembrança com impressão, andança com veneração, memória real com memória inventada justamente no ano da peste. No ano da peste me ponho em quarentena que não tem quarenta dias e nem os conto. Ponto. Não sei por onde começo. Poderia ser pelo fardo. Mas é o ano da peste e as pessoas recolhem os trens de pouso. Daí que duelo com um paradoxo. Não te queria por perto. Mas ainda hoje sinto que longe também não resolve e a quarentena não ajuda a discernir se amor mesmo é se tolerar sob o mesmo teto ou se guardar pela distância. No entanto espero que após a quarentena, independente de julgamentos,  longe ou perto , sobreviva o amor com “A” maiúsculo.

*Ricardo Soares é escritor, roteirista , jornalista e diretor de tv. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

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