Dia Estadual do Livro Infantil é celebrado pela primeira vez no Ceará, em homenagem a Horácio Dídimo


Um dos maiores nomes da literatura do Estado, o autor completaria 85 anos nesta segunda-feira (23); em meio à quarentena, por prevenção ao coronavírus, engenhosas iniciativas fazem com que a data ainda assim seja fortalecida


“Criança não trabalha, criança dá trabalho”. Atemporais, os versos de uma das canções mais populares do grupo infantil Palavra Cantada parecem emergir com maior vigor nesses dias em que a realidade se torna (quase) insustentável em meio ao contexto de coronavírus.
De fato, criança dá trabalho, sim, especialmente quando reclusa em casa. É coisa de organismo e, mais ainda, um direito natural dela. Nosso dever, por outro lado, no posto de pais e mães que estão enfrentando o período de quarentena com os pequenos, é incentivar que toda essa energia deles seja concentrada em atividades que busquem entreter com inteligência e criatividade.
Nesse sentido, engenhosas iniciativas têm feito com que esse momento de pausa e prevenção seja estação, sobretudo, de descoberta. Diversos contadores de histórias do Brasil, por exemplo, têm realizado transmissões ao vivo no Instagram de modo a ecoar, na telinha, narrativas de toda ordem.

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Irrefreável amor aos livros era característica intrínseca a Horácio Dídimo, que faria 85 anos hoje
Foto: Henrique Dídimo

O cronograma é diário e, nesta segunda-feira (23), ganha uma distinta textura, em especial para o cenário cearense. É que hoje celebramos, pela primeira vez em nossa história, o Dia Estadual do Livro Infantil
A data é a mesma do aniversário de Horácio Dídimo (1935-2018), um ícone da literatura feita para crianças no Ceará, que completaria 85 anos hoje. Não é mera coincidência, porém.
No ano passado – em virtude de um desejo do filho do autor, Luciano Dídimo, de homenagear o pai – foi elaborado um projeto de lei, de autoria do Deputado Estadual Renato Roseno que, sancionado pelo governador Camilo Santana, tornou-se a lei 16.916, de 27 de junho de 2019, instituindo o 23 de março como o dia dedicado às narrativas para os miúdos.
“Sem dúvida, Horácio Dídimo influenciou uma infinidade de alunos durante toda a sua vida no magistério”, explica Luciano. “Seu alcance se dá no próprio ensino da Literatura Infantil, uma vez que as teorias publicadas em ensaios literários nas revistas de Letras da Universidade Federal do Ceará continuam a ser pesquisadas, estudadas e utilizadas por alunos e professores”.
Não à toa, de forma a celebrar a data, o Instituto Horácio Dídimo, do qual Luciano é diretor, organizou duas coletâneas inspiradas nas obras infantis “O Passarinho Carrancudo” e “As Historinhas do Mestre Jabuti”, escritas pelo literato. Trata-se de “Os Novos Poeminhas do Passarinho Carrancudo” e “As Novas Historinhas do Mestre Jabuti”, resultado de processo de edital público, em que foram selecionados 150 textos de aproximadamente 100 autores, e 150 ilustrações de 50 artistas visuais de todo o País. Por conta da contenção à proliferação do coronavírus, os lançamentos das obras foram suspensos, mas ainda haverá uma nova data para o feito.

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As duas coletâneas que serão lançadas após a pandemia de coronavírus, em homenagem a Horácio Dídimo

REFLEXÕES

A inspiradora árvore de letrinhas regada por Horácio rendeu muitos frutos. Sobralense vivendo há anos em Fortaleza, Simone Pessoa é um deles. Ela estudou no Colégio Cearense, onde o autor e os filhos também cumpriram expediente.
“Vez por outra, o nome dele era suscitado nos bancos. Adulta, tive um maior contato com sua poesia. No gênero da literatura infantil, li o maravilhoso ‘O Menino Perguntador’”, conta. Dali, fez-se igualmente poeta e criadora de diversos títulos de literatura infantil.
É dela a autoria de três obras voltadas para o público de pouca idade: “O Pequeno Hércules e outras Fábulas Contemporâneas” (Armazém da Cultura), “A Menina e o Cachorrinho, Duas Irmãs”, premiado com o selo PAIC - Programa de Aprendizagem na Idade Certa; e “O Menino que entrou no Jogo” (Editora Illus).
“Creio que a literatura infantil deve versar sobre valores, tais como respeito ao outro, à vida, ao meio ambiente, além das relações familiares e sociais e dos costumes adaptados aos novos tempos. Tudo isso de forma criativa, diferente e sem didatismo. A criança valoriza a história em si, os personagens e as emoções que eles possam inspirar”, considera.
Por isso mesmo, Simone observa que há uma tendência entre os autores cearenses para a infância de ressaltar o cenário e a cultura locais, num rico processo de valorização nossa.
“Na coleção do PAIC, observei essa característica. Nesse mesmo rumo, meu livro de fábulas (‘O Pequeno Hércules e outras fábulas contemporâneas’), por exemplo, foi todo ambientado no sertão cearense e os personagens são animais típicos daqui, como tatu, urubu, cavalinho, cabra, jumento, lagartixa, pata etc”, diz.

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Simone Pessoa é uma das autoras que integram a literatura infantil cearense

ROTA EMOTIVA

Em semelhante compasso, a escritora e poeta Fabiana Guimarães também é vetor importante de disseminação do universo das letras infantis no Ceará. Com cerca de 50 livros publicados em várias editoras (da Paulus à Colli Books, casa editorial belga) e quase 60 mil exemplares vendidos, ela também participa de uma diversidade de projetos literários, e brada:
“O livro parado na prateleira não tem vida. É preciso despertá-lo para a criança, acordando nela formas de se encantar com ele”.
Na ótica da autora, existem várias maneiras de fazer isso, métodos que o coração de um vocacionado educador certamente saberá como utilizar. “Aqui, incluo os pais como os primeiros e mais importantes educadores que, por meio da vivência da leitura e do amor aos livros, são, sem dúvida, os principais incentivadores por meio do exemplo”, destaca.
Quanto ao que pensa sobre Horácio Dídimo, o grande homenageado da data, diz: “É um querido. Tive a honra de ter meu primeiro livro de poemas, ‘Mar Violeta’, apreciado por ele. Acho de grande merecimento esta homenagem de atribuir a ele o Dia Estadual da Literatura Infantil, por tudo que ele representa para nós”. 

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Escritora e poeta Fabiana Guimarães tem cerca de 50 livros infantis publicados e quase 60 mil exemplares vendidos

Luciano que o diga. Quando evoca a imagem do pai, traz o irrefreável amor às leituras. “Era um apaixonado por livros! Quando minha mãe ia abrir alguma gaveta ou armário, tomava um susto porque estava cheio deles. Desde que me entendo por gente, sempre o via rodeado por obras”.
E recorda: “Na casa em que morávamos na Rua Juvenal Galeno, no Benfica, seu gabinete tinha estantes de livros do chão ao teto nas quatro paredes, às vezes com duas fileiras de obras em cada prateleira. Depois, fomos para o apartamento na Parquelândia e à medida que os filhos iam casando, ele ia ocupando os outros quartos com livros. Se ia ao shopping, ficava nas livrarias; nas viagens, sempre queria conhecer as livrarias de cada lugar”.
Assim, há muito o que se comemorar. Mas talvez haja algo mais forte, capaz de driblar a dobra do tempo e já ser eterno: “Ler livros na infância torna a pessoa capaz de ser um agente transformador, a fim de implementar, com eficácia, as mudanças que a nossa sociedade necessita. Mas deixo um alerta com as próprias palavras de Horácio Dídimo: ‘Em geral, um adulto não sabe escolher um livro bom para a criança ler, a não ser que a criança que ele foi ainda continue morando no coração dele’”.

Diário do Nordeste

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