Minha ode às pequenas editoras

Pequenas editoras são responsáveis hoje por dar vazão a muitos autores inéditos e jovens no mercado literário
Não quero “Graal” e outros fasts foods estradeiros. Quero a birosca organizada, asseada e personalizada dos pequenos pontos de parada
Não quero “Graal” e outros fasts foods estradeiros. Quero a birosca organizada, asseada e personalizada dos pequenos pontos de parada (Hue/ Unsplash)
Ricardo Soares*
Chega uma hora que você pensa assim: “não vai dar tempo”. Não vai dar tempo de acertar de novo em um casamento, não vai dar tempo de ler toda a sua biblioteca, de dar conta de acalentar tantos amigos feridos e maltratados pelos tempos fascistas, não vai dar tempo de publicar todos os livros que você gostaria de ver soltos no mundo, muito embora às vezes me acometa a dúvida se eles são mesmo necessários. Assim sendo é preciso inventar um novo tempo. O seu tempo.
O tempo das editoras grandes e prestigiadas é diferente do tempo de quem quer e precisa publicar, mas não está no holofote da mídia nem sabe fazer amigos e influenciar pessoas. As grandes editoras querem e precisam vender. Assim sendo a fila delas é a lógica do mercado, não da qualidade mesmo que a qualidade paute suas escolhas. Elas, as grandes, precisam de lucro e o lucro não tem a ver com qualidade. Dito isso, ainda lhes digo: faço um passeio pelo meu umbigo.
Depois de ter publicado a vida inteira “bissextamente” (o termo, de gosto duvidoso, é meu) e ter sempre priorizado o jornalismo e a televisão como primeiras opções, me vi diante de um hiato profissional:  me dediquei tanto a essas opções e optei tantos anos por apostar em cavalos errados (como a dedicação a comunicação pública brasileira) que negligenciei o fazer literário tendo me dedicado muito mais a divulgar  a literatura do que a praticá-la dando inclusive palanque a falsos brilhantes. Mas essa é outra prosa.
Fato é que descobri que falta tempo nesses tempos líquidos e gasosos. E quando descobri que o tempo de envio e resposta de originais a editoras grandes é muito grande resolvi optar de vez pelas editoras pequenas como se fosse um consumidor que optasse pelo comércio do bairro do que as grandes redes. Não quero “Graal” e outros fasts foods estradeiros. Quero a birosca organizada, asseada e personalizada dos pequenos pontos de parada que me sirvam café bem tirado e bolo de fubá.  Por isso esta modesta crônica presta homenagem a tantas pequenas editoras responsáveis hoje por publicarem alguns nomes, digamos, “consagrados” e dar vazão a muitos autores inéditos e jovens. Elas são muitas e sobrevivem com sangue, suor, lágrimas e alguns risos e cito aqui apenas as que estão mais perto de mim por motivos pessoais ou autorais. A saber : Penalux, Patuá, Ibis Libris , Papagaio, Ateliê Editorial.
As editoras aqui citadas e muitas mais promovem uma barreira de contenção contra as mesmices e os vícios do mercado muito embora também vivam correndo atrás dos prêmios circunstanciais que se ajudam a projetar o nome delas também promovem a ilusão de que só é bom o que é premiado. Deixo aqui, por exemplo, a velha história de que Fernando Pessoa, pouco conhecido em vida, ficou em segundo lugar num prêmio de poesia importante em Portugal sendo que o primeiro colocado jamais ouvimos falar.
Prêmios são importantes, mas não são determinantes. Aos escritores compete escrever. Aos editores publicar num fluxo que alimente a curiosidade, mas se atenha a qualidade. Isso é a chancela que se espera e muitas vezes as pequenas editoras pecam por publicar em quantidade e não qualidade. Mas, entendo, é uma questão de sobrevivência. Estou e estarei com elas. Torcendo e ajudando se isso for possível. O tempo delas agora parece mais com o meu. E elas, agora mais do que nunca, nesses tempos onde escritos são mal vistos,  são mais necessárias do que nunca.
*Ricardo Soares é diretor de tv, jornalista e escritor. Publicou , pouco, por editoras grandes e pequenas. Em maio sai pela Penalux “ Devo a eles um romance”.

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