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Não tenho asas

Ao vagar por ruas e pensamentos, preferia ser como o anjo de bronze do túmulo da família, que acabou sendo roubado
Não chorei por ele, mas por mim que não tenho asas. Voar, pois, é uma ação imprecisa.
Não chorei por ele, mas por mim que não tenho asas. Voar, pois, é uma ação imprecisa. (Elesban Landero Berriozábal / Unsplash)
Ricardo Soares*
Março frio e atípico. Prenúncio precoce de inverno rigoroso. Me estico em um velho sofá vermelho que veio de Brasília, onde ela e duas amigas se sentaram para trocar confidências. Uma das amigas tinha sobrenome tão francês que está gravado até no Arco do Triunfo em Paris.
Com este março frio e atípico, inauguro novas dores nas juntas e imagino unguentos e novas fórmulas que me tirem aflições, inclusive as da alma. A alma vaga pela avenida Antonio Carlos em Belo Horizonte, mas também se apega à rua da Consolação, em São Paulo, e à rua Gustavo Sampaio no Leme, Rio de Janeiro, onde neste instante chove copiosamente. 
Escrever é um fluxo de registros específicos que cristalizam dias e horas conforme o critério dos autores. Assim, através deles, saberei o que aconteceu numa tarde de pós segunda guerra na avenue Foch na capital da França ou a visão que teve um escritor pernambucano da avenida Angélica, em São Paulo, numa tarde de 1972.
Pela centésima vez aprendo que meu pai é um retrato na parede e que jamais ganhei prêmio algum em qualquer loteria. Tenho estado muito bem assado. Não pelo calor, mas por sentar tantas vezes nos mesmos tristes lugares. Soube ontem que roubaram um anjo de bronze do túmulo da família. Não chorei por ele, mas por mim que não tenho asas. Voar, pois, é uma ação imprecisa.
*Ricardo Soares é jornalista, diretor de tv e escritor. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários. Em maio lança “ Devo a eles um romance”.

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