Nos tempos da Jovem Guarda

Roberto Carlos, Erasmo, Wanderleia e o movimento que mudou os hábitos da juventude
Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa durante a gravação do filme Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa
Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa durante a gravação do filme Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa (Wikipedia/Arquivo Nacional)

Afonso Barroso*
Confessou um segredo: estava amando loucamente a namoradinha de um amigo, e nem sabia como isso acontecera. Disse que foi de repente. Um dia, olhou no olhar dela e se apaixonou. Preocupado, não sabia o que fazer pra ninguém saber que estava gamado daquele jeito. O que seria dele se os dois soubessem daquela paixão inconveniente? Como não queria, de modo algum, magoar um amigo de fé e irmão camarada, decidiu esquecer e procurar alguém que não tivesse ninguém.
Essa historinha bobinha está contada e cantada na música “Namoradinha de um amigo meu”, que bem resume a beleza ingênua de um movimento musical e de costumes nascido no meio dos anos 1960 e ao qual se deu o nome de Jovem Guarda. Tempo dos coroas de hoje que na época eram jovens pra frente. Tinham carangos, quase não davam mancadas, vestiam calças apertadas e boca de sino, usavam longas cabeleiras e tinham cuca legal. Quanto às coroas, eram então garotas papo firme e uma brasa, mora!
O curioso é que a Jovem Guarda despertou a ira do pessoal da MPB. Admitia-se que os jovens podiam fazer música popular, mas não tão popular como aquela, que para os puristas não tinha conteúdo, embora empolgasse e arrastasse multidões. Os da pauta intelectual ficaram tão revoltados que idealizaram e promoveram, em 1967, a Marcha Contra a Guitarra, uma passeata idiota, liderada pela cantora Elis Regina e acompanhada por inúmeros artistas da MPB. Utilizar guitarra elétrica era “americanizar o que é nosso”, dizia o lema do protesto. Eles torciam o nariz para aquele tipo de música sem apelo político ou ideológico, numa época de ditadura e censura que exigia mais do que aquela água com açúcar. Daí a promoção da passeata ridícula da qual participaram tantas boas cabeças da nossa música. Mas os radicais são assim mesmo: embora dotados de raro talento e inteligência, ou até por isso mesmo, nunca se dão conta da própria insensatez.
Apesar da imensa popularidade entre os jovens, a música da Jovem Guarda sofria críticas severas dos críticos musicais, que a consideravam pobre de melodia e rimas, além de alienantes. Mas o certo é que ela mudou os hábitos da juventude. Os programas exibidos pela TV Record nas tardes de domingo tinham tanta audiência que chegaram a provocar o esvaziamento dos estádios de futebol.
De vez em quando, na qualidade de coroa nostálgico, ouço composições daquela turma de jovens do reino de Roberto Carlos. Nada mais gostoso do que um banho de lua, uma espera à beira do caminho, um apelo ao senhor juiz para parar um casamento, o calhambeque que ganha do Cadillac, o filme triste que faz chorar, o estúpido cupido, o ritmo da chuva, etc, etc, etc.
Se você pretende saber quem eu sou, faça como eu. Além de Roberto, Erasmo e Wanderleia, perca um tempinho (ou melhor, ganhe), ouvindo Jerry Adriani, Leno e Lilian, Evinha, o Trio Esperança, os Golden Boys, Márcio Grayck, Ed Wilson, Ronnie Cord e Ronnie Von, Renato e Seus Blue Caps, Os Incríveis, Sérgio Reis, Antônio Marcos, Eduardo Araújo, Martinha, Vanusa, Celi Campelo, Rosemary, The Fevers e tantos outros que venderam milhões de discos e ainda hoje alegram os ouvidos e à sensibilidade.
Se você, por alguma razão, não gostar, aceite minhas condolências.
*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

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