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Quaresma, isolamento, fé e mergulho interior

Quando a confiança é colocada à prova, podemos discernir se nossa postura é de fé ou não
Confinamento nos obriga ao mergulho interior
Confinamento nos obriga ao mergulho interior (Szabo Viktor/ Unsplash)

Felipe Magalhães Francisco*
A crise sanitária que estamos vivendo está deixando a muitos com as sensibilidades à flor da pele. A verdade é que não sabemos muito o que nos espera, apesar das previsões de especialistas que se dedicam a estudos dessas situações. Estamos diante do maior de todos os nossos riscos: o do morrer. A revelação de nossa fragilidade é assustadora. Já sabemos que somos frágeis, mas, diante de nós, está o fato. Além disso, estamos tendo que mudar radicalmente o ritmo de vida e, numa sociedade cada vez mais tarefeira, o que temos para fazer, no isolamento de nossas casas? Além da lida doméstica, temos tido uma oportunidade singular de olhar para dentro de nós mesmos.
São nestas situações limites que sabemos se temos ou não fé. É quando a confiança é colocada à prova, que podemos discernir nossa postura, se é de fé ou não. Há uma certa ironia ou, no mínimo, um simbolismo no fato de este isolamento de quarentena se dar em pleno momento litúrgico que, para alguns cristãos, corresponde ao que chamamos de Quaresma. Tempo de retiro, de deserto. Em todo período quaresmal, ano após ano, insistimos no fato de que temos a oportunidade de fazer um mergulho em nós mesmos, para lá encontrarmos um caminho de encontro com Deus. Agora, esse mergulho está sendo inevitável: mas como temos lidado com esse encontro profundo com nossa interioridade? O Dom Especial desta semana se propõe a contribuir com esse processo de interiorização, refletindo sobre a singularidade desta Quaresma, e como ela interpela nossa fé.
Abre a reflexão, Eduardo César, com o artigo A fé em tempos de isolamento, no qual chama a atenção para o real sentido da fé, na sua perspectiva de um consentimento, quando acolhemos a comunicação que o próprio Deus faz de si conosco. A pergunta motivadora para esta reflexão é sobre como viver a fé, nesse nosso contexto de isolamento, no qual o ritmo da vida e a maneira de realizarmos a convivência estão radicalmente diferentes. A fé é uma grande aliada, na experiência e no enfrentamento desse difícil momento, quando a percebemos e a compreendemos em seu papel transformação.
No segundo artigo, Quaresma em quarentena: tempos de provação, Daniel Reis reflete sobre o sentido deste tempo litúrgico, trazendo as implicações espirituais para a especificidade da crise sanitária que o mundo tem sofrido. Alertando para os riscos que falsas interpretações teológicas e religiosas a respeito da gravidade do mundo, quando tendem a imputar a Deus a origem do caos que nos acomete, o autor trabalha de modo a nos ajudar a perceber como a pedagogia da Quaresma nos ajuda a passar por esse momento, experimentando verdadeiros valores espirituais.
O mergulho interior, provocado por esta quaresma de quarentena, pode revelar algo que o tempo todo buscamos por esconder: nosso vazio existencial; nossa falta radical. Essa é uma boa ocasião para que percebamos a perversidade do capitalismo, que nos condiciona num individualismo solitário e voraz, ao mesmo tempo que nos convence de que no consumo e na saciedade dos desejos imediatos estão a solução para o drama do existir. Quando tudo está parado, quando o tempo do fazer e do consumir está em suspenso, temos a chance de refletir a respeito daquilo que realmente nos humaniza e, em decorrência disso, quais os valores que podem dar um significado rico de sentido para como conviver sabiamente com esse vazio. Será que a fé cristã tem algo a nos ensinar, a este respeito? Daniel Couto nos ajuda nessa reflexão, com o artigo O isolamento: dicotomia entre a fé e o capitalismo.
Boa leitura e feliz e rico encontro interior!
*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

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