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Televisão e quarentena

Embora o jornalismo cresça e Globo tente ser líder, o que une o Brasil, além de fora Danil, são as panelas
Ljubomir Stanisic apresenta a (possível) melhor versão de 'Pesadelo na cozinha'
Ljubomir Stanisic apresenta a (possível) melhor versão de 'Pesadelo na cozinha' (TVI)

Alexis Parrot*
A pandemia do coronavírus chegou para mudar nossas vidas de maneira irremediável. Presos em casa na tentativa de evitar o contágio, tanto a TV por assinatura quanto a aberta (embora recheadas de reprises que tendem a crescer em progressão geométrica) voltam a um pódio que já parecia perdido para as plataformas de streaming e redes sociais.
Enquanto durarem quarentenas e isolamentos, a televisão será companheira fiel de todas as famílias e indivíduos em busca de entretenimento e ferramenta essencial para driblar o tédio e a solidão.
Em decisão acertada, a produção de novelas, séries e minisséries foi suspensa sem prazo de retorno e apenas o jornalismo segue firme e até ampliado, em alguns casos. Neste momento de pânico, a informação é seguramente o melhor remédio e o telejornalismo decidiu abraçar sua função social como há muito não víamos no país.
Mas o excesso de notícias ou a informação desencontrada podem ser tão nocivos quanto a ignorância. A falta de zelo da CNN Brasil, louca para mostrar a que veio após a estreia decepcionante, levou a um erro imperdoável de desinformação. Sedento por um furo, o canal anunciou o adiamento da olimpíada de Tóquio, quando na verdade o COI apenas deliberou um prazo final para tomar a decisão. O episódio não pode ser considerado fake news porque não houve intenção de dolo; tratou-se apenas de incompetência mesmo.  
Do outro lado da balança, há que se destacar o editorial do Jornal da Band da última sexta-feira. Honrando o legado de seu predecessor Boechat, o âncora Eduardo Oinegue condenou o desnecessário conflito diplomático causado por Eduardo Bolsonaro e pelo chanceler Ernesto Araújo justamente com a China, nosso maior parceiro comercial.
Mais surreal que a declaração via twitter do deputado ("denunciando" a China como responsável pela pandemia), só mesmo a atuação do ministro ao exigir retratação após o protesto público do embaixador chinês. Oinegue chamou o Zero2 de irresponsável e Araújo de idiota – nada além do que realmente são.
Ao criticar sem meias palavras o ridículo de toda a situação, o telejornal mostrou possuir o mínimo que se espera de um veículo de comunicação, principalmente em tempos de crise: coragem e independência.  
Sunday Bloody Sunday
Assistindo àquele programa do tempo em que Corona era só uma ducha de água fria, vem a triste constatação: o Domingão do Faustão, sem público, consegue ser mais deprimente ainda do que já era.
Bom samaritano (até certo ponto)
Seguindo protocolo iniciado na Europa e tentando prevenir um possível colapso no tráfego da banda larga, a Globo decidiu pela diminuição da qualidade de imagem em seus pacotes de conteúdos via internet (Globoplay, G1, GShow, Globoesporte.com e Globosat Play). A deliberação mostra visão, porém, com aquele toque de arrogância que só mesmo o conglomerado dos Marinho é capaz de produzir.
Ao mesmo tempo em que a emissora afirma estar agindo em nome da "responsabilidade e solidariedade", segundo palavras de seu diretor técnico, o comunicado distribuído à imprensa revela a expectativa de que "seu movimento seja acompanhado por outros provedores de serviços na internet, especialmente os de streaming".
Ao cobrar da concorrência a tomada de medidas idênticas, a Globo revela a aspiração de se tornar líder estratégica do segmento, pelo menos aos olhos da opinião pública. Faltou combinar com as outras plataformas e com o bom senso. Liderança não é algo passível de autoproclamação, mas sim de conquista.
Entre o panelaço e o paredão
O único programa da TV brasileira que não mudará o curso por causa da Covid-19 será o Big Brother e sua vigésima edição terminará amealhando um feito digno de láurea. Se a pandemia tem conseguido fazer brotar novas formas de solidariedade ao redor do mundo, o feudo de Boninho (metáfora profética do isolamento a que somos obrigados) nos uniu em torno de outro ideal.
Hoje à noite o Brasil vai lavar a alma com a eliminação do insuportável Daniel. Superada esta etapa, poderemos todos voltar às janelas para continuar batendo panelas e torcer por dias melhores.
Fé demais não cheira bem
Após ordenar o fechamento de todas as basílicas e grandes igrejas em Roma, o papa segue na dianteira do combate ao contágio do coronavírus. Para não desassistir o povo católico durante momento tão grave, Francisco decidiu transmitir pela internet a missa que celebra diariamente no Vaticano pela manhã, a exemplo da mensagem do Angelus, que já seguia a mesma praxe há alguns domingos.
Enquanto isso, Edir Macedo, proprietário da Universal do Reino de Deus, publicou vídeo no youtube (já retirado do ar) em 12 de março, afirmando que o coronavírus é "mais uma tática de satanás" e criação da mídia, endossando depoimento dado por um patologista obscuro que espalha fake news pelo ambiente digital. Seu colega de profissão, Silas Malafaia, foi para as redes sociais desafiar governadores que determinaram o fechamento das filiais de seu rentável negócio, a Igreja Vitória em Cristo.
Dois dias depois, foi obrigado a capitular – de tão mal que pegou sua exortação. Não precisa ser gênio para intuir o porquê de recusa tão feroz de suspender cultos. Sem os fiéis nos templos, é óbvio que cairá sobremaneira a arrecadação do dízimo e do dinheiro solicitado para correntes de todo tipo, atrapalhando muito mais o lucro de poucos do que a fé de muitos.
Gente como Edir "nada a perder" Macedo e Silas Malafaia, a nova encarnação dos vendilhões do templo denunciados por Jesus à sua época, são um outro tipo de epidemia que deve ser evitada a todo custo.  
Dica da semana
Uma das baixas já anunciadas pela Band no rastro do coronavírus é a terceira temporada de Pesadelo na cozinha. As gravações foram suspensas e a estreia marcada para o início de abril, cancelada. Enquanto Jacquin não vem, uma boa alternativa para os aficionados do programa é a versão portuguesa da atração.
O chef Ljubomir Stanisic assume as honras da casa e viaja pelo país tentando salvar restaurantes à beira da falência ou da inanição. Após passar boa parte da adolescência na frente de combate da guerra da Bósnia, o sérvio Stanisic chegou à terra de Camões para acabar conquistando um lugar ao sol no competitivo cenário da "restauração" – como os patrícios denominam o ramo dos restaurantes.
Por incrível que possa parecer, sua intensidade supera a de Jacquin ou mesmo a de Gordon Ramsay, o criador do formato na TV norte-americana. Talvez por isso mesmo, os resultados tendem a ser mais efetivos. Entre todas as versões do formato a que já assisti (Brasil, EUA e Itália), é a minha favorita, por ser a que mais e melhor ensina – conseguindo passar longe de qualquer didatismo.
As três temporadas do programa estão disponíveis gratuitamente no serviço de streaming do canal português TVI.
Streaming com álcool gel
Segundo informação divulgada pela própria Netflix, as buscas mais populares entre os brasileiros no seu catálogo apontam para títulos como PandemiaEpidemiaFlu e Noventa e três dias. Para desespero de Bolsonaro e sua trupe de negacionistas, o assunto é realmente incontornável.

*Alexis Parrot é crítico de televisão, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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