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Uma fonte fundamental para leitores e aspirantes a escritores

Em 'A escritura na era da indeterminação', Philippe Willemart caminha na contramão dos manuais rápidos e oferece uma via mais rica, densa e inteligente aos futuros escritores
O livro publicado é a repetição da repetição de um processo exaustivo de reescritas e recalques. O manuscrito é a gênese, e por isso pode nos fornecer ainda mais
O livro publicado é a repetição da repetição de um processo exaustivo de reescritas e recalques. O manuscrito é a gênese, e por isso pode nos fornecer ainda mais (Reprodução/Youtube)

Jacques Fux*
Neste momento em que tem se proliferado o desejo de muitos de se tornarem escritores, mas que a leitura, a crítica literária, o estudo profundo das obras, técnicas, reflexões estão postos de lado – e alguns “manuais” rápidos e pragmáticos que “ensinam” como escrever fazem sucesso, o professor titular de literatura francesa da Universidade de São Paulo, Philippe Willemart, caminha na contramão.
Uma contramão mais rica, densa e inteligente, que fornece subsídios e inflexões para futuros escritores – e também para os amantes da literatura e dos enigmas criativos e ficcionais. A proposta de se estudar “crítica genética”, com ênfase na maior obra acerca do poder e da busca da memória – Em busca do tempo perdido -, é digna de mérito.  
No livro Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa escreveu: “A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância”. A crítica genética – o estudo e a investigação da gênese do texto – se preocupa, de alguma forma, com essa busca não linear, muitas vezes obtusa e secreta, porém mais próxima da arte-falha do viver do que da própria literatura publicada.
O pesquisador procura extrair das emendas e lituras do texto – e das cicatrizes, lascas e ranhuras do texto perdido original – o enigma da criação, do big bang ficcional. A constituição/construção do texto, por meio do material bruto esquecido e clandestino, é revisitado – porque o aprender a escrever é o escrever mesmo, assim como a própria vida (nas palavras de Riobaldo): “Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.”
A vida, talvez, seja mais próxima do manuscrito. Assim, para entender a vida-obra-literatura, é importante adentrar nos rascunhos, nas rasuras, nas lacunas e brechas deixadas pelos canônicos escritores. Esses textos furtivos têm uma gama infinita de possibilidades - uma chave, uma dica, uma vinheta da arte da criação/invenção - como escreve Willemart: “O manuscrito é terreno fértil no qual o acaso, especialmente visível em cada rasura, abunda, já que o releitor pode afirmar o contrário do que tem sido escrito a cada palavra, frase, parágrafo, embora deva frequentemente levar em conta o que precede. De todo forma, a coerência global está ameaçada em qualquer mudança. O manuscrito inclui ambas as possibilidade, a coerência e a inconsistência, e é, por isso, o lugar do acaso mallarmeano definido por Meissalloux (55)”.
Nós, aspirantes, escritores e leitores, buscamos pela palavra, expressão, densidade e pela trama correta. Porém, ao idealizarmos que o escritor canônico, em um momento sublime e rotineiro de inspiração, encontra magicamente a palavra “perfeita”, nos minimiza e nos conduz a um bloqueio.
A gênese da criação apresenta o caminho real, resvaloso, e fornece uma pista mais fiel para seguir: “cada palavra utilizada se refere não a uma invenção do autor que capta o que lhe convém nos numerosos livros lidos ou nas experiências próprias. Resultado modesto, mas que confirma uma das teses em crítica genética, a saber, a desaparição progressiva do nome do escritor nos manuscritos e a construção paralela da instância do autor (62)”.
A poeta polaca Wislawa Szymborska, agraciada com o Nobel de Literatura em 1996, escreveu em seu belo poema, A vida na hora, o seguinte: “Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes / ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez! / Mas já se avizinha a sexta com o roteiro que não conheço”. O livro publicado é a repetição da repetição de um processo exaustivo de reescritas e recalques. O manuscrito é a gênese, e por isso pode nos fornecer ainda mais: “Estudar o manuscrito compensa o trabalho, às vezes, de difícil decifração, porque, além de relativizar a instância do autor, dá acesso à informação do pensamento do autor e da cultura subjacente, e à descoberta dos processos de criação (64)”.
Os manuais de escrita de ficção são limitados e limitantes, enquanto que o estudo crítico e genético apresenta um infinito de informações e pensamentos: “o escritor não escreve sem um prazer particular que o empurra a trabalhar, prazer muitas vezes misturado com o sofrimento, como as rasuras testemunham, mas esse prazer/sofrimento é sempre sustentado por um gozo inconsciente, o grão de gozo, que tem em sua base a pulsão invocante. Dar um sentido ao grão de gozo desconhecido é o objetivo subentendido e não sabido de todo escritor. Portanto, o texto móvel provocará a rasura do texto, questionando cada releitura até o texto publicado (69)”.
O leitor desse belo trabalho de Philippe Willemart – que além de explorar os textos de Proust, ainda nos presenteia com a análise dos manuscritos de Flaubert, Poe, Joyce, Bauchau e Murakami – é metamorfoseado em investigador. Uma inquirição que não trará nenhuma solução dos enigmas da inspiração, e desnorteará a tentativa de uma explicação da estrutura rígida textual. Porém, verificará a transpiração do autor/scriptor – “Quantos textos do narrador proustiano foram abandonados e teriam suscitado outra escritura ou mesmo outra história?” –, e poderá enriquecer a reflexão do fazer artístico.
“Essa mudança de perspectiva, como leitor do manuscrito e não mais como leitor de um livro publicado, obriga-me, sem dúvida, a mudar algo nos movimentos já definidos da roda da leitura, e a encarar a diferença ao nível do interesse que ponho. Não procurarei mais conhecer especificamente uma história e saber o fim, não estarei envolvido pelas personagens, nem dilacerado entre eles para saber de que lado me situo, meu afeto não se deixará levar, em primeiro lugar, pelo imaginário do romance que me separa do mundo no qual vivo. O romance já foi lido e somente será considerado o fim de um longo processo ou de uma longa caça do escritor preso com a história e sua língua (70)”.
Willemart não conclama que sejamos leitores de manuscritos – “Assim como o grito gera o silêncio, a rasura, que equivale a uma emergência ou a um grito, gera um tempo de espera e um silêncio mais ou menos longo (80)” –, mas nos convida a conhecer o inaudito e subterrâneo mundo das complexas desrazões, rasuras, recalques e descobertas que esses manuscritos nos trazem.

A ESCRITURA NA ERA DA INDETERMINAÇÃO
De Philippe Willemart
Perspectiva
232 páginas
R$49,90 (Saraiva)
*Jacques Fux é professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE), matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.

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