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A visita do ano passado

Tudo aquilo que o ano passado valorizava a gente, na real, desprezava porque achava que era simples demais
O ano passado insiste em ficar em casa e não é lá muito exigente no cardápio
O ano passado insiste em ficar em casa e não é lá muito exigente no cardápio (Estée Janssens/ Unsplash)

Ricardo Soares*
O calendário do ano de 2019 teima em ficar sobre a mesa de trabalho. Achei que já o tinha guardado, incinerado, arquivado, mas como uma alma penada ele volta pra me lembrar que não foi tão ruim quanto eu supunha. Mesmo com a posse do pior presidente da história do Brasil. Mesmo com o crescimento do fascismo e da ignorância ostentação não apenas em nosso país mas em muitos lugares do mundo. Assim sendo o ano passado insiste em fincar pé aqui em casa. Está cansado, mas não abatido. Afinal ele mesmo sabe que não foi um ano fácil mas também me lembra que me fez ver paisagens novas me fez descobrir livros antigos que eu ainda não tinha lido e conhecer novos amigos que de tantas afinidades descobertas já se tornaram amigos de infância.
O ano passado insiste em ficar em casa e não é lá muito exigente no cardápio. Qualquer arroz-feijão e ovo frito está bom. Aí aproveita e petisca um naquinho de café com queijo canastra, dá um pito num cigarro de palha e até – por que não? – bebe uma cachacinha de saideira porque afinal ele já devia ter ido, mas está aqui para ser bem lembrado. Para que eu lhe faça justiça e que entenda, suavemente, que ele foi injustamente esculachado porque no caso de 2019 só enxergamos os erros e as iniquidades e não o que ele nos trouxe de bom como o direito , agora tolhido, de ir e vir, o sagrado de ver e rir, o necessário de louvar mais e reclamar menos. Porque tudo aquilo que o ano passado valorizava a gente, na real, desprezava porque achava que era simples demais, óbvio demais. Aí o ano passado olha pela minha janela, pelas nossas janelas todas e percebe que não dá pra ir assim lá fora, no descuido, o que, no ano passado, a gente fazia na boa. E então o ano passado me faz valorizar os seus feitos e me relembra de tudo o que aconteceu comigo, aquela conversa do viver é mais legal que sonhar, aquela prosa de que qualquer canto é menor que a vida de qualquer pessoa como dizia num mundo melhor o compositor Belchior.
Assim, assado, não vai embora o ano passado. Disse que ainda fica mesmo que eu o considere uma visita indesejada. E pediu para que eu não o queira mal e muito menos queira mal o ano que corre porque a longo prazo vamos tirar lições disso. Eu tento responder que a longo prazo todos estaremos mortos e ele ri da minha frase feita e aconselha que devemos seguir erguendo a viga, tocando o barco, distensionando o arco e deixando a flecha ser levada pelo vento na melhor tradição de autoajuda barata. E o ano passado diz, para arrematar, que o ano vigente merece uma chance mesmo que agora não se veja nada pela frente. E arremata, ainda na tradição de autoajuda, que no mínimo o ano de 2020 será o primeiro do resto de nossas vidas. Que ele, ano passado, espera que sejam anos muito melhores.

*Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários

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