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Diário da quarentena

O segredo da felicidade está simplesmente em separar o essencial do supérfluo
Os confinamentos costumam ativar a criatividade do indivíduo
Os confinamentos costumam ativar a criatividade do indivíduo (Inside Weather/ Unsplash)

Fernando Fabbrini*
Na reclusão desses dias explodiram piadas nas redes sociais, gozações infames sobre comportamentos do brasileiro na quarentena. Os confinamentos costumam, sim, ativar a criatividade do indivíduo. E isso tem até uma base científica. Quem já experimentou um brainstorm bem conduzido em oficinas de criação sabe que certa dose de pressão, estresse e deadline urgente funcionam como esporas de um peão no nosso lombo. Rapidinho, novas ideias brotam, quase na marra.
Um amigo contou-me sobre seus prazeres da prisão domiciliar, todos limitados à cozinha – ambiente altamente frequentado nesses tempos. Ele é cozinheiro amador. Porém, segundo o citado chef, o ruim é que você come um bife considerando apenas estar consumindo proteína; bebe um suco imaginando suas necessidades diárias de vitaminas; e por aí vai. O prazer da boa mesa cedeu lugar às preocupações com a sobrevivência; que chato. Outra amiga, arquiteta talentosa, confessou-me que já preparou nada menos de nove esboços e combinações de cores para uma futura reforma da sala, copa e quartos. Segundo ela, “nisso é que dá ficar olhando para o teto, deitada no sofá”.
A internet vem salvando muitas pessoas da solidão, mas é uma via perigosa e sem nenhum critério de qualidade, como sabemos. O que eu recebi de notícias falsas, alarmistas e até cruéis daria um livro. Fico aqui pensando: o que leva um sujeito a pegar uma cena de filme de terror produzida num hospital fictício, editá-la e postar com a legenda: “Gente, recebi agora de um amigo que é médico lá em Porto Alegre, olhem como a coisa está!” Isso deveria dar condenação em rito sumário.
Cansado da TV e já na fase de rever filmes antigos por falta de opção, tentei distrair-me nas revistas de variedades. Péssima ideia. As revistas de hoje, em sua maioria, viraram manuais de instruções para o sucesso, realização pessoal e felicidade eternas. Cada reportagem é um alento contra os inexoráveis malefícios do deus Cronos, aquele chato da ampulheta e senhor supremo das rugas, celulites, flacidezes e cabelos brancos, levando na coleira seu temido pastor-alemão de nome Alzheimer. Cada página louva a supremacia da pele esticada, dos seios empinados, dos bíceps rígidos e da proteína botulínica.
Daí voltamos à realidade, à rotina tediosa do confinamento e às preocupações pelas quais estamos passando. Folheando a publicidade que recheia as revistas, tudo fica absolutamente supérfluo, risível e absurdo: automóveis luxuosos, unhas bem pintadas, gravatas de seda, eletrônicos de design moderno, massagens, barriga de tanquinho, músculos modelados, eterna juventude, dentes brilhantes, jeans da moda. Que nada: a gente não precisa disso.
No fundo, espero que essa fase difícil nos faça reconhecer, com sabedoria, o segredo de ser feliz: simplesmente separar o essencial do supérfluo. E então agradecer as pequenas dádivas que a vida nos dá. Cada um tem sua lista. Se quiserem saber, a minha é bem simples: um cinema em boa companhia, um café com amigos, um papo furado com direito a gargalhadas, gente alegre em volta de uma mesa – com vinho e comida italiana, claro – e abraços apertados sem restrições.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália

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