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Italiano que lançou livro sobre pandemia fala sobre papel da literatura na crise

Paolo Giordano escreveu "A matemática do contágio", que foi lançado em 25 países, inclusive no Brasil. Também roteirista, ele prepara série com Alice Braga


No último dia 26 de fevereiro, o jornal Corriere della Sera publicou o artigo A matemática por trás do contágio, do escritor Paolo Giordano, conhecido no Brasil por obras como A solidão dos números primos e O corpo humano. 

O texto foi compartilhado 3,5 milhões de vezes e passou a ser considerado determinante para mudar a opinião pública italiana a respeito da gravidade do surto de coronavírus, então em suas primeiras semanas no país europeu, que acabou se convertendo no segundo epicentro da pandemia - depois da China.

Oficialmente, a Itália só entrou em quarentena em 9 de março. Naquele momento, havia 10 dias que Giordano estava fechado em sua casa, em Roma. Em 29 de fevereiro, ele tinha dado início ao seu novo livro.

No contágio é um ensaio em que o autor de 38 anos, doutor em física e um dos jovens romancistas mais prestigiosos de seu país descreve seus pensamentos e angústias frente à pandemia.

Publicado na Itália no fim de março, em menos de um mês o livro já foi lançado em mais de 25 países, em 30 idiomas. No Brasil, o ensaio sai pela editora ítalo-brasileira Âyiné. Por ora, somente no formato digital. Assim que for possível, também em livro.

“O que os escritores têm que fazer é lembrar às pessoas que elas continuam sendo únicas”, afirma Giordano, na entrevista a seguir ao Estado de Minas.

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No contágio é a primeira publicação literária da Itália sobre a pandemia e também uma das pioneiras em todo o mundo. É urgente que a literatura trate da questão?

Sim, porque acho que a literatura vai lidar com o coronavírus de diferentes maneiras, seja em histórias ou ensaios. Quando eu, rapidamente, escrevi No contágio, pensei que as pessoas precisavam de informações claras, mas também de informações que pudessem construir um elo de sensibilidade, especialmente quando você está machucado, confuso e com medo. Eu vi na Itália, mas acredito que isto ocorra em todo lugar: é difícil encontrar o seu lugar no meio do discurso comum. Estamos tão focados na questão emergencial que não há espaço, neste momento, para discutir de onde a epidemia veio e o que devemos fazer no futuro. Acho que este é o lugar da literatura agora.

No início do ensaio, você escreveu que não quer perder o que a epidemia está revelando sobre nós mesmos. Que aspectos positivos e negativos sobre a humanidade já foram revelados desde então?

Para mim, uma surpresa positiva foi a disciplina das pessoas, como a população está pronta para reagir e se sacrificar para proteger sua comunidade e os mais vulneráveis. Por outro lado, há questões preocupantes. Uma, é claro, é a forma descrente com que vários países estão vendo os acontecimentos. Depois que o livro foi lançado na Itália, por exemplo, o seu presidente ainda estava acreditando na ideia de que a pandemia não é grande coisa. Ele foi o último de uma longa lista de governantes que tiveram a mesma opinião. E há outra coisa: somente agora percebemos que sempre colocamos a economia e o lucro em primeiro lugar. Fica parecendo que não podemos pensar de maneira diferente. E estamos pagando por isso, porque não conseguimos pensar de outra maneira quando foi necessário.

Qual é a responsabilidade de um escritor neste momento?

Há uma grande necessidade de significado. As pessoas estão perdidas, com medo, então precisam de sentido. Há muito espaço para os escritores oferecerem tanto isso quanto também consolo. Há uma necessidade real de conexão. Estamos lidando com medidas muito pesadas, e o vírus trata todos da mesma maneira. Todos precisamos ficar confinados, ainda que este momento seja diferente para cada um. O que os escritores têm que fazer é lembrar às pessoas que elas continuam sendo únicas. Cada um tem sua própria história, seus problemas e preocupações. Então, não podemos perder a ideia sobre nossa singularidade. E um escritor pode fazer isso, ainda mais porque os governos e instituições estão muito ocupados lidando com a situação em geral.

Stephen King afirmou recentemente que os romancistas terão que repensar seus trabalhos diante dos acontecimentos. Concorda com isso?

É verdade, ele está completamente correto. Fiquei mais tranquilo em não estar com um romance em andamento quando tudo começou. Fosse de outra maneira, eu estaria com um grande problema em mãos, pois o que estamos passando nos força a repensar tudo. Pensar hoje em algo de dois meses atrás me parece tão distante. Vejo comerciais que foram produzidos antes de tudo e aquelas pessoas fazendo coisas comuns na TV me parecem como uma janela do passado. Como podem fazer isso? (Quando acabar) Terei que recomeçar com uma cabeça totalmente diferente. E vou levar muito tempo para encontrar um novo caminho.

O que os brasileiros deveriam aprender com os italianos diante dos acontecimentos?

É difícil falar para quem está de fora, mas o que todos têm problema para entender é que estamos na mesma linha do tempo. A Itália, de alguma maneira, está no futuro em relação aos outros países. Mas o que aconteceu conosco tem que ter o interesse do mundo todo. Temos que cooperar, todos. No último mês, o Brasil foi na posição contrária, assim como outros países. No livro, menciono a questão dos incêndios na Amazônia – esse é apenas um exemplo. Lembro que a resposta à questão foi: “Ok, a floresta é nossa. Não mexa com o nosso negócio”, enquanto o resto do mundo expressava sua preocupação com o que ocorria. Este é exatamente o tipo de atitude que temos que mudar. Os acontecimentos nos mostram que a saúde, a segurança do mundo são uma preocupação que concerne a todos, em qualquer lugar.

Qual é a primeira coisa que quer fazer quando estiver “livre”?

Ir a um restaurante na praia. Penso muito sobre isso. A costa é muito perto de Roma, não mais do que meia hora de carro. E a última vez que saí, livre, foi em fevereiro, quando fui a esse restaurante almoçar. Como foi a última coisa que fiz, quero que seja a primeira na volta. Mas terei que esperar mais.

Trecho

“Quando eu estava no ensino médio, houve várias manifestações contra a globalização. Só participei de uma delas e fiquei decepcionado. Não conseguia entender por que estávamos nos lamentando, tudo era abstrato demais, muito genérico. Para ser sincero, gostava da globalização, visto que prometia música excelente e boas viagens.

Ainda agora, quando digo ‘globalização’, fico confuso diante de uma ideia vaga e multiforme. Mas consigo pelo menos intuir seu esboço, seus efeitos colaterais a desenham. Por exemplo, uma pandemia. Por exemplo, a nova forma de responsabilidade estendida, da qual nenhum de nós pode mais escapar.

Realmente, ninguém. Se os seres humanos que interagem uns com os outros estivessem ligados com traços de caneta, o mundo seria um gigantesco rabisco. Em 2020, até o eremita mais rigoroso tem sua cota mínima de conexões. Vivemos em um gráfico muito, mas muito conectado com a matemática.

O vírus corre ao longo dos traços da caneta e chega a qualquer lugar. Aquela meditação abusada de John Donne, ‘nenhum homem é uma ilha’, assume no contágio um novo e obscuro significado.”

SÉRIE SOBRE O DESEJO

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Romance mais conhecido de Giordano, A solidão dos números primos (Rocco, 2009) foi adaptado para o cinema em 2010 por Saverio Costanzo. O roteiro foi do próprio escritor. Giordano também roteirizou a série Who are who we are, produção da HBO em fase de finalização dirigida por Luca Guadagnino (Me chame pelo seu nome). Na história, dois adolescentes norte-americanos crescem numa base militar dos EUA na Itália. A brasileira Alice Braga está no elenco, como a mãe de um dos jovens. “É uma série delicada, e em boa parte das vezes falta sutileza às produções do gênero, especialmente aquelas que falam de jovens. Esta é muito verdadeira, fala sobre o desejo, e como ele sempre escapa das certezas que temos sobre nós mesmos”, diz Giordano.

NO CONTÁGIO

Paolo Giodano
Editora Âyiné (76 págs.)
R$ 9,90 (e-book).
Mais informações: www.ayine.com.br

Fonte: UAI

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