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Os 80 anos de Orides Fontela, devota irretocável da palavra e do silêncio


Importante voz da literatura brasileira, a autora paulista, falecida em 1998, completaria oito décadas de vida neste 21 de abril; admiradores e pesquisadores de sua obra, dentre eles cearenses, destacam a amplitude do que ela escreveu


É sempre tempo de celebrar a poesia e os poetas, sobretudo aqueles que, de maneira radical, viveram de e para o verbo em versos. Orides Fontela enquadra-se neste perfil. Paulista de São João da Boa Vista, foi daquelas pessoas capazes de questionar padrões e definir novos rumos no ofício literário que, com esmero e talento, tão singularmente construiu. 
“Ela ainda enfrentou a dura tarefa de ser filósofa no Brasil. Recusou-se ao matrimônio e a ter filho em um país machista como é o nosso. Além disso, foi muito pobre. Alguém que teve uma vida tão dura e produziu uma poesia que quase flutua de tanto estado vertical, ascendente, deve ser sempre festejada”, afirma Gustavo de Castro, poeta, escritor, jornalista e antropólogo.
Ele é autor de, entre outras obras, “O Enigma Orides”, publicada em 2015 pela editora Hedra, compondo um duo de livros que contemplam a trajetória íntima e profissional de Fontela – o outro exemplar é “Orides Fontela - Poesia Completa”, organizado por Luiz Dolhnikoff. 
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Orides Fontela não casou, não teve filhos, trabalho fixo nem paciência para as convenções e conveniências sociais
Foto: Inêz Figueiredo/Divulgação
Em face das comemorações pelos 80 anos da poeta, completos nesta terça-feira (21), Gustavo conversou com o Verso a fim de tecer considerações sobre o legado deixado por Orides na literatura brasileira. Segundo ele, “ela promoveu a revolução do mínimo vital. A revolução da rapidez. A palavra poética contida, breve, lacônica e iluminada. Quase um koan. Não ser derramada, romântica, dada a joguinhos e trocadilhos. Buscou pela poesia uma revolução interior que passava pela difícil missão de unir ética e estética numa forma coerente de estar no mundo”.
Nesse sentido, o estudioso reitera que foi, sim, uma transformação íntima aquela vivenciada pela poeta, da iniciação que fez: primeiro filosófica, depois os votos budistas e, por fim, a capacidade de se libertar disso também.
“Teve a habilidade de ser livre de bens materiais. Antonio Candido me disse que Orides foi a Rimbaud brasileira. Pode ser”.
Amplitudes
Cearense residindo em Belo Horizonte (MG), Nathan Matos, editor e fundador da editora Moinhos, elenca dois livros de Orides como seus preferidos: “Transposição” e “Alba” – este responsável por premiá-la com o Jabuti de Poesia, em 1983. 
O primeiro porque foi por meio dele que conheceu o poema “Ludismo”, criação que lhe fez ler toda a obra de Fontela e se debruçar com mais calma na apreciação dos demais poemas sob a assinatura da autora.
“O segundo porque foi o objeto principal, digamos assim, da minha pesquisa de doutorado. Foi com ‘Alba’ que passei a compreender que o livro de poesia é também um ato, uma criação poética, que pode ser tão importante quanto a construção de um poema”, explica.
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Livro publicado pela Editora Moinhos no ano passado ajuda a iluminar a poética da autora
No ano passado, Nathan publicou, pela Moinhos, “Orides Fontela - Toda palavra é crueldade”, em que reúne três depoimentos, entrevistas realizadas ao longo da vida da artista e algumas resenhas que ela publicou. No mesmo período, outra casa editorial, Relicário Edições, também trouxe a público mais uma faceta da escritora. Em “O Nervo do Poema: Antologia para Orides Fontela”, organizada por Patrícia Lavelle e Paulo Henrique Britto, encontramos textos de poetas vivos como forma de homenagear a literata.
Questionado se a autora –  de aparência diminuta e frágil, mas de forte personalidade – ainda é pouco lida, Nathan comenta que, até pouco tempo, acreditava que sim. Contudo, revisitando a história dela, o que se percebe é que a literatura de Orides era consumida, mas apenas por uma parcela da intelectualidade brasileira, considerando o período em que esteve viva até falecer, em 1998.
“Se a gente parar e observar, por exemplo, os últimos 10 ou 12 anos, veremos que o resgate da poesia dela, começando pela publicação de toda a sua obra ainda com a extinta Cosac Naify, vem acontecendo de maneira muito positiva. Artigos surgiram, TCCs, dissertações, teses. Um apanhado teórico em torno da obra de Orides tem sido construído de maneira essencial para que o grande público possa saber mais sobre essa poeta”, considera.
E completa: “Não só isso, vários e várias poetas foram, aos poucos, descobrindo sua poesia e lendo em saraus, compartilhando nas redes sociais, fazendo resenhas sobre suas obras e isso vem contribuindo para que hoje em dia, por exemplo, as pessoas saibam quem é Orides Fontela. No entanto, ainda acho que ela merece continuar sendo lembrada, não apenas nas datas comemorativas, digamos assim. A poesia dela precisa chegar ainda, com mais força, no público que ela sempre desejou, o povo de maneira geral”.
Fascinação
Foi por meio de um amigo que a procuradora de justiça Nadia Maia, aluna do curso de Pós-graduação da Universidade de Fortaleza – ela faz especialização em escrita e criação, mas gosta de ser referenciada simplesmente como leitora de poesia – conheceu Orides Fontela. “Ele me disse que eu ia gostar de lê-la. Fui buscar os poemas e me fascinei”, conta.
Hoje, sente inspiração toda vez que lê determinadas criações da literatura que, segundo ela, a tocam profundamente. Um deles é “Aforismos”, em que escreve:
matar o pássaro/ eterniza o silêncio/ matar a luz/ elimina o limite/ matar o amor/ instaura a liberdade
“A forma como Orides permite o silêncio acontecer é deslumbrante. Cada palavra escolhida tem um peso, uma densidade. Como não amar?!”, festeja Nadia. Por isso mesmo, considera que a celebração dos 80 anos da poeta traz essa possibilidade. É tempo de Orides ter mais leitores para que se relacionem, a seu modo, com as palavras evocadas por uma poética pungente.
A família da poeta tem feito um trabalho durante este mês para divulgação da hashtag #Orides80anos no intuito de celebrar o momento.
“Talvez, agora, seja o máximo que se possa fazer, o que é ótimo, porque nas redes sociais, usando a hashtag, você consegue acompanhar algumas pessoas que gostam muito da poética de Orides e ajudam a compartilhar. Acho maravilhoso”, vibra Nathan.
Ele também adianta que tem dois projetos pensados contemplando o trabalho da poeta. Em um, pretende chamar pesquisadoras e pesquisadores para compor um livro ensaístico sobre a obra de Orides. No entanto, algumas pessoas conhecidas dele já começaram o movimento, então preferirá agregar a esse plano no lugar de criar um novo. 
O segundo envolve criar uma coleção de livros acadêmicos sobre a obra dela. Há bons estudos já defendidos, mas que ainda não foram publicados em livro. “Mas é uma semente ainda, falei com algumas pessoas e a ideia está surgindo. É o que temos, por enquanto, na Moinhos”.
Da parte do editor, ainda reverbera uma questão: “Orides esculpe a palavra. Ela é precisa, é certeira em muitos casos e nos engana quase sempre, com seus artifícios. É preciso estar atento à teia e à trama que ela finda sempre e que desfaz sempre, assim como Penélope. Quem lê-la, vai entender que ‘só existe o impossível’. E isso por si só já é o bastante para nos fazer refletir”.
Por sua vez, Gustavo de Castro a encara como uma grande mulher e uma poeta imensa. Ela o emociona até hoje de mil maneiras diferentes e cada um dos cinco livros que publicou instaura uma nova forma de ver as coisas, o mundo.
“Acho que Orides foi alguém que amou a poesia mais do que a própria vida. Seu texto reflete a devoção que ela tinha pela palavra e pelo silêncio. Só ‘duas coisas admiro’ escreveu ela no poema ‘Kant (relido)’: por um lado, ‘a dura lei cobrindo-me’ , e, por outro, o ‘estrelado céu dentro de mim’”, conclui.
SAIBA MAIS - FARTO LEGADO
Orides Fontela nasceu em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, em 1940. Publicou trabalhos no periódico de sua terra natal e no suplemento literário do jornal O Estado de S. Paulo. Formada pelo curso de Filosofia da Universidade de São Paulo, foi premiada com o Jabuti de Poesia por “Alba”, em 1983, e com o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, por “Teia”, em 1996. 
Publicou, no total, cinco livros: Transposição, Helianto, Alba, Rosácea e Teia. Em 2007, o Ministério da Cultura homenageou-a com a Ordem do Mérito Cultural, categoria Grã-Cruz. Maria Helena Teixeira de Oliveira, prima da poeta, foi quem recebeu a condecoração das mãos do Presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, em Belo Horizonte.
A poeta vivenciou momentos agudos de depressão e solidão, além de costumeiras dificuldades financeiras, recebendo apoio dos amigos Antonio Candido, Davi Arrigucci Jr. e Marilena Chauí. O peso da realidade a conduziu várias vezes a tentativas de suicídio. No fim da vida, acabou sendo despejada de seu apartamento no centro da cidade e foi viver com sua amiga Gerda na Casa do Estudante Universitário, velho prédio na Avenida São João, região central de São Paulo, onde passou seus últimos anos. 
Morreu em Campos de Jordão, aos 58 anos, no dia 2 de novembro de 1998, de insuficiência cardiopulmonar, provocada por uma tuberculose, na Fundação Sanatório São Paulo. Não fosse a ajuda de um médico da Fundação, que viu um livro juntamente com os objetos pessoais de Orides, a poeta poderia ter morrido como indigente.

Diário do Nordeste

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