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Quando o cinema não era confinado

Havia pré-estreias nas manhãs de domingo em algumas das muitas salas do centro da cidade
Cine Guarani, localizado no alto da Rua da Bahia, em Belo Horizonte
Cine Guarani, localizado no alto da Rua da Bahia, em Belo Horizonte (Reprodução/Pinterest/Rodrigo de Araujo)

Afonso Barroso*
Neste tempo de nada fazer e muito pensar, passei uma hora inteira me lembrando dos antigos cinemas de rua de Belo Horizonte, todos fechados com o advento dos shoppings. Todos. E na esteira das lembranças, pensei em filmes também antigos que vi, uns memoráveis, outros nem tanto.
Comecei pelo Cine Brasil, na Praça Sete. Foi lá que assisti ao documentário Europa de noite, rigorosamente proibido para menores por causa dos strip-teases das boates Moulin Rouge e Crasy Horse. Muito bem feito, narrado em Italiano, mostrava a vida noturna principalmente de Paris, e era uma festa para os olhos e o eros dos moços que nem eu. Foi lá que eu vi também Zorba, o grego, um dos melhores filmes daquele tempo, e assisti a inúmeras pré-estreias nas manhãs de domingo.
No Acaiaca (Afonso Pena com Tamoios e Espírito Santo), assisti a dois dos filmes mais aterrorizantes da história do cinema, O exorcista O bebê de Rosemary. No caso do filme de Polanski, não esqueço a mulher que se sentava numa cadeira próxima de onde eu estava. Ela torcia desesperadamente para que a gestante e futura mamãe do demônio (Mia Farrow) não tomasse as vitaminas que os misteriosos vizinhos davam a ela. Chegava a dizer alto não bebe, boba, não bebe.
No Candelária, da Praça Raul Soares, assisti ao primeiro western spaguetti do cinema, O dólar furado, que fazia as mulheres gostarem até de faroeste italiano por causa da presença de um ator bonito que só ele, chamado Giuliano Gemma.
O Royal, na Avenida Afonso Pena, foi o único a mostrar o primeiro filme com cenas de sexo explícito em tela grande na cidade, O império dos sentidos, drama japonês que levou muita gente ao cinema.
Por falar em sexo explícito, uma das salas concorridas era o Cine Regina, a rainha do sexo. Exibiu, durante todo o tempo em que a censura fez vistas grossas, filmes do cinema pornô norte-americano. Ficava na baixa Bahia.
Tinha o Cine Guarani, na alta Bahia, onde assisti ao filme que me garantiu o primeiro lugar no concurso promovido pelo jornal Diário da Tarde e que me tornou jornalista. O concurso era para escolher o substituto do crítico Antônio Lima, que se mudara para São Paulo, contratado pelo Jornal da Tarde. O filme era o belíssimo Noviça rebelde, considerado hoje um clássico do cinema, para o qual os severos críticos leitores dos Cahiers de Cinema torciam o nariz. Eu, ao contrário, fiz uma crítica elogiosa que desagradou a turma dos intelectualóides, mas agradou aos jurados do concurso. Fui, vi e venci.
O Cine Pathé, na Avenida Cristóvão Colombo, era especializado nos chamados filmes de arte. Vi vários, alguns extremamente chatos, mas todos altamente recomendados pela crítica. Eram admitidos lá Jean Luc Goddard, François Troufaut, Alain Resnais, Federico Felini, Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti, a turma do tempo da Nouvelle Vague francesa e do Neo-realismo italiano. Poucos norte-americanos eram admitidos lá, entre eles Hitchcock, o mestre do suspense, e Raoul Walsh, um dos cineastas mais produtivos do seu tempo.
O Palladium, o mais luxuoso da cidade, na Rio de Janeiro com Augusto de Lima, também exibia bons filmes. Um dia, pegou fogo, mas foi reconstruído. O Cine México, na Avenida Oiapoque, era meio que especializado em filmes de faroeste e outros do cinema underground. Na Rua Tupis havia o Cine Tupis, que depois mudou o nome para Cine Jáques, acho que em homenagem a um dos inúmeros filhos do proprietário, Antônio Luciano, dono de quase toda a rede. E havia ainda o Cine Art Palácio, na Rua Curitiba, o Nazaré, Rua Guajajaras (onde eram exibidos os piores filmes nacionais), o Tamoio, na Rua dos Tamoios, e o Metrópole, na Esquina de Bahia com Goiás, onde vi alguns dos bons filmes da época.
Havia cinemas também nos bairros, como o Floresta e o Odeon, na Floresta, o Amazonas na Barroca, o Roxi no Barro Preto, o São Geraldo e o Mauá, na Lagoinha, o São Cristóvão na Avenida Antônio Carlos, e mais não me lembro.
O certo é que os cinemas de rua não existem mais. Uns viraram supermercados, outros desapareceram simplesmente na voracidade urbana, outros se espatifaram, como o Candelária. Hoje, as salas estão confinadas nos shopping centers.
Mas o cinema, que eu saía pra ver, agora vem me ver em casa. Entra no meu pequeno apartamento (não gosto de apê) em forma de Netflix ou Telecine. Tudo bem, tudo legal. Os tempos são outros, mas eu continuo o mesmo. Fã de cinema em tela de qualquer tamanho.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

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