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Recomeçar, salvo melhor juízo

Existem os dias que foram, os que gostaríamos que fossem e os que estão sendo
Recomeço é a única certeza da vida além da morte
Recomeço é a única certeza da vida além da morte (Nathan Dumlao/ Unsplash)

Ricardo Soares*
Mexendo nos guardados, boa terapia mas cheia de ácaros nos tempos de quarentena, dou de cara com uma crônica do saudoso Lourenço Diaféria publicada em 23 de dezembro de 1993 no finado Diário popular de São Paulo. Nela o cronista nos diz que sua vida havia lhe ensinado que existem três tipos de Natal. “Existe o Natal que foi. Existe o Natal que gostaríamos que fosse. E existe o Natal que está sendo”.
Lourenço Diaféria não chegou a viver até essa pandemia mas podemos adaptar seu raciocínio aos tempos que correm: existem os dias que foram. Existem os dias que gostaríamos que fosse. E existem os dias que estão sendo. Os dias que estão sendo são, todos eles, aprendizados quase brutais porque podemos enxergar até belos horizontes mas não podemos ir até eles sem nos sentirmos ameaçados pelo vírus implacável. É como se houvesse ali no fim do arco-íris o pote de ouro, mas não pudéssemos alcança-lo. É a utopia que está ali na próxima esquina, no balcão da padaria onde tomávamos café e pão com ovo, na mesa da calçada de um bar de sábado a tarde tomando cerveja com torresmo com os amigos. Tudo ficou tão longe embora perto.
Os dias que estão sendo são realistas, crus, implacáveis. No ensinam que o clichê de que é ruim ficar no passado e não se pode prever o futuro é mais do que realidade. É o que nos resta. Um dia de cada vez, nem ilusório, nem festivo, mas o que temos à mão. Afagando nossos cães e gatos, tentando ser compreensivo com aqueles que dividem o cativeiro – ops, quarentena – com a gente com suas manhas e manias. Aprendendo mais que nunca a conviver com os defeitos e qualidades daqueles que nos cercam. Com isso, talvez, não mudemos o mundo, mas mudamos de assunto. O que não era importante passa a ser.
Já os dias que foram esses foram mesmo e não voltam. Os guardamos como relíquias, espinhos, alentos e desalentos. Talvez nos sirvam para alguma coisa. Para que nos tornemos melhores, mas nem tanto. Os dias passados não vão mudar o mundo. Do riso ao pranto passaram, mas podem sim nos ensinar. De que o recomeço é a única certeza da vida além da morte. Depois da queda, depois do espanto, depois do aclive, do declive lá estará em todas as conjugações o verbo recomeçar.

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*Ricardo Soares é escritor, roteirista, jornalista e diretor de tv. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários

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