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Refletindo sobre o “paradoxo das livrarias”

Em artigo, a editora Paula Cajaty reflete sobre a sustentabilidade do atual modelo de negócio de livrarias.
Em reflexão sobre o artigo do escritor Antônio Carlos Cortez, publicado nesta semana no jornal português Público e do qual eu ouso divergir em alguns pontos específicos, abordo aqui o que eu costumo chamar em grupos de editores e debates como o “paradoxo das livrarias”: Se as livrarias estão fechando, em escala planetária e em ritmo constante, cabe investigar o motivo pelo qual o modelo de negócio não está sendo sustentável.
E a sustentabilidade se revela em uma equação tênue de equilíbrio entre receitas e despesas.
Do lado das despesas, sabemos que as livrarias obtém o seu “mostruário” e estoque sem precisar adiantar o pagamento dos produtos, nem o custo da entrega deles, e só pagam meses após a efetiva compra dos clientes. O problema, então, não parece estar com os fornecedores (editores e distribuidores) mas, sim, situa-se na entrada financeira, isto é, no que pagam os seus frequentadores.
Ora, um consumidor, ao entrar em um restaurante, café ou lanchonete, é logo impelido a iniciar o seu pedido e, ao terminar a refeição e pagar a conta, não pode ficar na mesa para além de uns confortáveis 10 minutos. Os garçons incumbem-se de gentilmente criar a situação constrangedora com o sutil: “Deseja mais alguma coisa?"
Igualmente ao entrar em uma boutique, lá está uma vendedora a impeli-lo ao consumo. “Olá, posso ajudar?” é a senha para que o consumidor esteja a precisar de ajuda para “encontrar o que deseja”, adquiri-la e sair daquele ambiente.
Nas lojas de departamento, por sua vez, um consumidor pode estar lá o quanto deseje, pois as fornecedoras pagam pela exposição e pelo espaço (vide modelo Apple dentro da rede FastShop, em que a empresa de tecnologia apenas aluga o espaço para efetuar as vendas), mas só há roupas, gadgets e sapatos, sem sofás ou cadeiras para que possa apenas “estar” agradavelmente em exercício de get-togethers e atividades culturais, intelectuais e de debate.
Assim, a livraria fica em um limbo: recebe os seus consumidores, que ali pretendem folhear livros, estudar, fazer consultas, inspirar-se, encontrar amigos e boa programação gratuita sem que, contudo, estejam remunerando a livraria por este serviço de acolhimento.
Em um cinema, ou um teatro, os consumidores pagariam pela entrada, mas, para as livrarias, ainda há o peso para o staff da empresa de cuidar da programação de eventos culturais atrativos sem o respectivo pagamento das entradas.
Dizer, pois, que editores, distribuidores e fornecedores são a razão das quebras das livrarias é uma falácia confortável.
A quebra da livraria acontece de verdade na receita, que não é suficiente para pagar o aluguel do espaço, o custo dos funcionários e os impostos incidentes sobre as atividades exercidas. Isso gera um prejuízo operacional mensal que resulta no calote do elo mais fraco: os fornecedores que gentilmente emprestaram (pagando o frete da entrega e os livros que terminam por não serem pagos) os seus produtos para ornar o espaço de convivência e de exercício da intelectualidade alheia.
Os custos operacionais são superiores à renda da venda dos livros, esta é a inafastável constatação.
A primeira pergunta do flâneur contemporâneo, sabemos, é a senha do wi-fi. O seu consumo é um café, ou uma água, no horário do almoço ou entre dois compromissos que gerem um tempo livre no qual possa lembrar-se de querer passear em um lugar no qual não seja compelido a “comer-pagar-sair”, nem receba o insistente sorriso de alguém que o empurre para uma despesa indesejada.
Se é assim, e se então a livraria não está recebendo a entrada financeira que precisa para se tornar um showroom sedutor para bebedores de café e utilizadores de wi-fi (às vezes até munidos de notebooks para atividades acadêmicas ou laborais, no melhor estilo do cowork gratuito), também não será o Estado quem terá de suprir os seus cidadãos com mais este espaço de convivência.
O Estado deve fornecer lazer aos cidadãos e já o faz com a manutenção das praças, pistas de corrida, orlas de praias e rios, entre outros chamados “aparelhos públicos”, dentre os quais se incluem as bibliotecas públicas.
Nas bibliotecas públicas, sim, pode-se estar o dia inteiro em segurança, ler todos os livros, estudar, usar o wi-fi, abrir o notebook para o trabalho, usar as máquinas de conveniência, e até mesmo aproveitar uma eventual programação cultural, como hoje acontece em várias bibliotecas públicas.
Porém, em um ambiente de comércio que não consegue reunir consumidores que remunerem a atividade, o Estado não precisaria intervir. Seria o mesmo que pagar pela existência de uma loja de sapatos que não consegue, com a venda dos sapatos, manter-se com saúde financeira.
Aqui não estou comparando livros a sapatos, mas duas empresas Ltda. ou S.A. que, em tese, deveriam reger-se pelas mesmas regras da sustentabilidade mercadológica.
Uma empresa que vende algo, simplesmente, deve obter com essa “venda” o valor suficiente para: pagar o produto que vendeu, os funcionários, os impostos e o espaço da sua atividade. Simples assim. Ou então terá mesmo que fechar as portas.
Se queremos de fato transformar o espaço das livrarias históricas em espaços de convivência, mude-se então o modelo de negócio, assim como fez a Lello, no Porto (Portugal). Ao entrar, o consumidor é avisado que pagará a visita, a não ser que consuma um valor mínimo, bem salgado, em livros.
Exatamente o mesmo já ocorreu há tempos com as igrejas históricas da Europa: já sem fiéis católicos em número suficiente que paguem-lhe o dízimo e com o fluxo constante de turistas que entram, fazem os três pedidos de praxe (com sorte rezam uma Ave-Maria), tiram uma dezena de fotos e vão-se embora, passaram a cobrar a entrada. Ora, se é um espaço turístico, que se cobre mesmo a entrada, porque não seria do Estado, para além da isenção da renda das atividades religiosas, a incumbência de custear a existência das tais “igrejas históricas” para que os turistas continuem a gerar fluxo financeiro para os estabelecimentos do entorno, e os cidadãos da localidade sintam-se bem da igreja não ter sido demolida para virar um estacionamento comercial.
Injusto mesmo para uma livraria, seja ela histórica ou não, ter o ingresso de consumidores-predadores, que tiram fotos para as suas redes sociais, manuseiam produtos, encontram-se com amigos, ocupam os vendedores, sugam-lhe o wi-fi, não pagam pela programação cultural (que comumente é gratuita), e depois vão-se embora ao custo de, com sorte, um café expresso.
Aí está, suspeito, a razão do problema: o descompasso entre receitas e despesas, crônico e mundial, causado pela mudança de comportamento dos consumidores-leitores. Não existisse a internet, não haveria outra fonte de consulta senão os livros e seria mesmo impossível ler os livros todos, de cabo a rabo, dentro da livraria. O consumidor precisaria comprar livros com mais intensidade, para não se tornar um pária ou um desprovido intelectual, desses que não sabem quem foi Camus ou Fitzgerald.
Com a internet e o celular na mão, esse equilíbrio financeiro da livraria foi cruelmente afetado, já que as plataformas digitais (Amazon, e outras do gênero) fornecem leituras infinitas gratuitamente, e fora da Amazon, a selva é ainda mais densa, na fácil busca dos downloads gratuitos de PDF que muitos colocam na chave de busca após enunciar o título dos livros que desejam consultar. Todos os dias é aportada uma quantidade de informações (em livros ou fora deles) - relevantes ou não - que levaria um tempo infinito para ser conhecida.
Voltando ao cotidiano das livrarias, como nenhum fornecedor de produtos desejará continuar a fornecer a um parceiro comercial que lhe dá calotes regulares e lhe prejudica a própria saúde financeira, inverta-se a proposta: ao entrar na livraria, cobrar-se-ia do consumidor o mesmo preço do estacionamento do shopping, que todos pagam sem reclamar.
Das editoras é cobrado outro posicionamento: ou a exclusividade, pois que é predatória a oferta do livro em promoção pelo celular e a preço cheio na livraria física, ou pague pelo aluguel do espaço, com a colocação dos livros em sistema de showroom, e custaria ao leitor interessado pouquíssimo: bastará que entre no site da editora, ou mesmo na Amazon, efetue a compra e a receba o produto em casa. Esse formato foi testado em lojas pop-up da TokStok recentemente e com sucesso. Algumas mudanças de comportamento, que acompanhassem a mudança dos tempos, e seria possível mudar para sempre, completa e definitivamente, o problema do parco ingresso financeiro, que está por trás da quebra de toda livraria.

* Paula Cajaty é escritora e editora. Publicou 'Afrodite in verso' e 'Sexo, tempo e poesia' (2008 e 2010), 'Guia essencial de autores iniciantes' e 'Partiu Portugal: o guia essencial para estudantes' (2018), e participou de coletâneas de poesias e contos. Ministrou aulas pelo SESC, NESPE e pela Universidade de Aveiro. Como CEO da Jaguatirica (@editorajaguatirica / Rio de Janeiro) e da Gato-Bravo (@editoragatobravo / Lisboa) já produziu mais de 400 títulos. Diretora da LIBRE - Liga Brasileira de Editoras, já apresentou livros e projetos nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Lisboa, Óbidos, Frankfurt, Berlim, Londres, Buenos Aires, Bogotá, Abu-Dhabi (UAE) e em Tai'an, na China.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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