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Sinal Fechado

Deixamos os tempos 'sensíveis' e 'civilizados' há muito
Aldir Blanc foi pessoa de admirável generosidade, letrista de largo fôlego, rara sensibilidade e refinada artesania, autor de letras-testemunhos de nosso tempo
Aldir Blanc foi pessoa de admirável generosidade, letrista de largo fôlego, rara sensibilidade e refinada artesania, autor de letras-testemunhos de nosso tempo (Reprodução/ Arquivo pessoal)

Eleonora Santa Rosa*
Evoco o título da canção de Paulinho da Viola para expressar o estado de espírito pelo ar irrespirável da omissão e do desprezo pelas vidas desperdiçadas dos desassistidos, pobres, idosos e jovens, ‘obsoletos’ e ativos, no constante empilhamento de corpos promovido pelo genocídio em curso. Semana ainda mais difícil, iniciada com a partida de um personagem singular, de admirável generosidade, letrista de largo fôlego, rara sensibilidade e refinada artesania, autor de letras-testemunhos de nosso tempo (íntimo, pessoal/político, social), Aldir Blanc.
Foi-se logo depois, o discreto aparentemente quieto Flavio Migliaccio, ator de dulcíssima feição e talento, cuja natureza da morte parece contradizer seu temperamento afável, sem gestos radicais. Árbitro de seu ato final, seu curto manifesto manuscrito legado trata da dor da dureza do trato dos velhos em país de maus tratos constantes, agravados pela insanidade do personagem de script barato trazido à cena principal na companhia de elenco surreal.
Silêncio que corta o ar, entristece o coração, machuca o espírito. Cultura em fase de melancolia, rebaixada e desmontada, em sua dimensão institucional, vilipendiada por mentiras, humilhações e persecuções covardes. Após a omissão e o desenlace, só restará o réquiem prologando e solene da má consciência.
Deixamos os tempos 'sensíveis’ e ‘civilizados’ há muito. O país tropical, abençoado por Deus e afável por natureza, transformou-se hoje num poço sem fundo impregnado de óleo de ressentimento e segregação.
Vergonha, vergonha, mil vezes vergonha pelas cenas ultrajantes das carreatas repletas de gente abjeta, expelida sabe-se lá de onde, desfilando sua descomunal ignorância e arrogância. Gente estúpida, gente hipócrita!
Irreparável tempo de enfermidade que ceifa vidas como a sua, Aldir, como a de Flávio, como a de milhares de anônimos sepultados sem o derradeiro gesto de amor e respeito. Na contagem cotidiana dos mortos de todas as idades, a trágica matemática da devastação brasileira.
Mas a vida, Aldir, há de viçar, há de vicejar a flor de lótus, e mensagens serão enviadas por todo o mar, como em seu Corsário:
Meu coração tropical está coberto de neve mas
Ferve em seu cofre gelado, a voz vibra e a mão escreve: Mar
Bendita a lâmina grave que fere a parede e traz
As febres loucas e breves que mancham o silêncio e o cais
Roseirais, Nova Granada de Espanha
Por você, eu, teu corsário preso
Vou partir a geleira azul da solidão
E buscar a mão do mar, me arrastar até o mar, procurar o mar
Mesmo que eu mande em garrafas mensagens por todo o mar
Meu coração tropical partirá esse gelo e irá
Com as garrafas de náufragos e as rosas partindo o ar
Nova Granada de Espanha e as rosas partindo o ar
Mesmo que eu mande em garrafas mensagens por todo o mar
Meu coração tropical partirá esse gelo e irá”.

Para Eduardo de Jesus.

O segundo artigo da série sobre museus será publicado na próxima semana.
Eleonora Santa Rosa – jornalista, ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais

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