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A Caixa Modernista

Sinto-me tão-somente triste e indignada pelo estado atual de nosso país
Caixa Modernista foi publicada em 2003 pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Edusp/UFMG e é um 'museu portátil'
Caixa Modernista foi publicada em 2003 pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Edusp/UFMG e é um 'museu portátil' (Eleonora Santa Rosa)
Eleonora Santa Rosa*
Em semana de temporada nostálgica, a vontade de mergulhar em períodos históricos ricos culturalmente, repletos de ideias, experiências de alta potência artística e intelectual, de bons embates acadêmicos de ordens diversas. Tempos de um Brasil mais instigante, provocativo, não acomodado e mediocrizado, sem paciência ou cerimônia com simplórios, despreparados e caricatos governantes, de um país brilhante e descortinador, de produção cultural de excelência, de arte de ponta, de polêmicas, críticas e profusa produção de ensaios e reflexões, de cadernos de cultura que mereciam esta designação, de repertório de gente inteligente, arguta, de pena e língua afiadas, que não afinava na primeira divergência e assumia os riscos de nadar contra a maré, à margem da margem. Delícia reler trocas epistolares de primeira linha, correspondências bem escritas, densas, de largo fôlego, indicando convergências, contraditas, pluralidade de opiniões e mordazes comentários. Melhor ainda ter em mãos fac-símiles e conexos, primorosamente editados sob os auspícios de patrocinadores mais sensíveis e engajados, por assim dizer, privados ou públicos, sobretudo bancos, financiadores de obras referenciais. Maravilhoso, nesse sentido, empreender viagens às décadas de 30, 50, 60 até os 70, a partir de preciosos e precisos empreendimentos editoriais, como, por exemplo, a caixa contendo as edições do extraordinário Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (SDJB),  as incríveis iniciativas da Cosac & Naify – cito duas especialmente, por seu significado no âmbito do que aqui está sendo tratado –, as publicações dedicadas à Arte Concreta Paulista (uma em relação ao Grupo Noigandres e outra voltada aos manifestos e documentos históricos dos vários grupos), as caprichadíssimas e memoráveis edições da Coleção Arquivinhos (Bem-Te-Vi Produções Literárias), com a réplica de manuscritos cartas, fotos, desenhos e inúmeros outros mimos de autores que vão de Vinícius de Moraes a Nelson Rodrigues, as importantíssimas reproduções dos originais das Revistas do Modernismo e por aí vai. Deste vasto incrível veio, ressalto a esplendorosa Caixa Modernista, publicada em 2003, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Edusp/UFMG. Não me canso de revisitá-la para sorver, entre sorrisos e êxtases, o material ali reunido: o programa e o catálogo da Semana de 22,  os fac-símiles de Paulicea Desvairada (1922), de Mario de Andrade, e Pau Brasil (1925), de Oswald de Andrade, o catálogo da exposição de Tarsila do Amaral na Galeria Percier de Paris (1926), com os poemas de Blaise Cendrars dedicados à cidade de SP, o primeiro número da Revista de Antropofagia, trazendo o manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, com a imagem do Abaporu. Há ainda nessa caixa mágica outras iguarias: postais com trabalhos icônicos de Anita Malfatti, Lasar Segall, Di Cavalcanti, da própria Tarsila, além de Cícero Dias e seu estupendo “Eu vi o mundo...ele começava no Recife (1926-1929), e do surpreendente CD – Música em torno do Modernismo, que leva a assinatura de produção de José Miguel Wisnik e Cacá Machado. Como bem disse seu organizador, o professor Jorge Schwartz, especialista no tema das vanguardas históricas, a Caixa Modernista é um verdadeiro “museu portátil”.
Não tenho vocação passadista e nem sofro crise de melancolia por um passado que já não é mais, sinto-me tão-somente triste e indignada pelo estado atual de nosso país, com a degradação promovida pelo atual governo, sobretudo da área à qual pertenço, um equívoco que nos custará décadas para seu soerguimento insitucional.
Voltando ao meu asilo/exílio momentâneo voluntário, sob o manto da Caixa Modernista, resgato das páginas iniciais do livro seminal do douto generoso Mario, de seu “Prefácio Interessantíssimo”, dos fundamentos de sua escola de “Desvairismo”, alguns registros deliciosos:                                                                          
“Não fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres”.
“Você está reparando de que maneira costumo andar sozinho.”
“E está acabada a escola poética ‘Desvairismo’”.
“E não quero discípulos. Em arte: escola = imbecilidade de muitos para vaidade de um só.”
“O passado é lição para se meditar, não para reproduzir”.
*Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, foi diretora do Centro de Estudos Históricos e Culturais da Fundação João Pinheiro, ex-diretora de captação e Marketing da Fundação Clóvis Salgado e ex-diretora executiva do Museu de Arte do Rio – MAR. Responsável pela primeira fase de concepção e implantação do Circuito Cultural Praça da Liberdade na capital mineira, pela criação do Museu da Cachaça de Salinas e pela concepção e implantação do Plug Minas. Consultora, gestora e estrategista cultural, é diretora do Santa Rosa Bureau Cultural, onde desenvolveu, dirigiu e/ou coordenou a implantação de diversos projetos de relevância nacional como o Museu de Artes e Ofícios em BH, o Museu da Liturgia em Tiradentes, o Projeto de Educação Patrimonial Trem da Vale em Ouro Preto e Mariana, dentre outros. É autora do livro Interstício.

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