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Descendo a ladeira

A morte não conhece piedade: é cruel com os que ficam tanto quanto com os que se vão
Moraes Moreira foi um daqueles baianos meio loucos e geniais que inundaram o Brasil de alegria. Eles brincavam com as melodias, os ritmos e as letras.
Moraes Moreira foi um daqueles baianos meio loucos e geniais que inundaram o Brasil de alegria. Eles brincavam com as melodias, os ritmos e as letras. (Reprodução/Instagram @moraesmoreiraoficial)

Afonso Barroso*
Acabo de ouvir um samba-canção interpretado por Emílio Santiago, uma das mais belas vozes masculinas de todos os tempos, que a morte calou mais ou menos recentemente. (Lembro aqui que em um congresso de fonoaudiólogos, as análises técnicas do timbre de cantores mostraram que Emílio Santiago tinha a voz mais perfeita do Brasil, o que não me surpreendeu).
Quando morre um artista desse nível, morre um pouco da alegria no Brasil. Isso soa como lugar comum, mas o que é comum cabe em qualquer lugar, em especial no coração de um brasileiro que nem eu, pertencente a uma geração que viveu o tempo da boa música e dos grandes intérpretes. Aquela música que sempre nos trazia a alegria de viver e cantar, mesmo que não fosse necessariamente alegre. Alegrava a gente até um samba que dizia Tristeza não tem fim.
Pena que as pessoas não sejam fisicamente eternas como são as obras, a voz, o canto de tantos que nos alegram os ouvidos, a alma, os sentidos enfim. Perdemos recentemente Luiz Melodia, a voz que era mais instrumento do que voz. Jerry Adriani, um jovem guardista querido de todos. Roberto Leal, o simpático português de Arrebita. João Gilberto, o insuperável violão da Bossa Nova. Beth Carvalho, uma das rainhas da corte real do samba. Todos se foram, em muitos casos precocemente, e em todos indevidamente, de causas diversas.
A perda mais recente foi a de Moraes Moreira, da safra dos Novos Baianos, aqueles que Caetano, um novíssimo baiano, cantou numa boa ao vê-los acolhidos com a reverência devida pela cidade de São Paulo, a megalópole do avesso do avesso do avesso do avesso. Moraes Moreira foi um daqueles baianos meio loucos e geniais que inundaram o Brasil de alegria. Eles brincavam com as melodias, os ritmos e as letras.
Toda vez que ouço um pedaço qualquer das músicas dominantes de hoje, especialmente dos primários sertanejos universitários, me lembro de como, nos últimos anos, o Brasil desceu a ladeira da criatividade e do bom gosto musical. Diz-se que na natureza, como na vida, nada se cria, tudo se transforma. Mas isso não vale para a música mais tocada e cantada de hoje em dia, que nada cria e nada transforma, ao contrário do tempo em que ela criava, transformava e enriquecia nossa percepção e nossa sensibilidade. Tudo se transformava com as dissonâncias da Bossa Nova, a ingenuidade poética da Jovem Guarda, a estética sofisticada do Clube da Esquina, o baião ou o xote buliçoso de Luiz Gonzaga, o samba carioca e a festa dos baianos.
Moraes Moreira era o cabeludo mais rebelde da minha geração. Cabelos que desciam abaixo dos ombros, bigode sempre preto-pretinho, voz baiana no mais completo timbre, ele tinha a musicalidade dos trios elétricos, aquela trioletricidade musical do jeito baiano de compor e cantar.
Lá vem o Brasil descendo a ladeira foi um dos grandes sucessos desse cantor, compositor e instrumentista de nível bem acima da média. Apegado como ninguém à sua terra e extremamente criativo, criou o Bahião com H. Também escreveu em literatura de cordel o livro A história dos Novos Baianos e outros versos. Mais recentemente, antenado no drama nacional do momento, escreveu um cordel sobre a pandemia do Covid-19.
Sabe-se que Moraes Moreira morreu dormindo. Certamente isso aconteceu quando, em sonho e ao seu estilo, ele compunha alguma música que infelizmente jamais poderemos ouvir ou cantar.

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*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

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