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Fabrício Carpinejar escreve livro durante a pandemia sobre importância do colo


Poeta gaúcho reúne 40 crônicas e 40 frases sobre saudade, amor, medo, angústia e solidão em ""Colo, por favor!" - Reflexões em Tempos de Isolamento"


O isolamento social nos trouxe um olhar para as miudezas do cotidiano. Os pequenos prazeres se agigantaram de março para cá. Tomar café da manhã sem pressa, fazer uma ligação no meio do dia só para falar de saudade, vestir um pijama de flanela, deitar num travesseiro macio e sentir o cheiro da fronha limpinha... Saímos do automático e passamos a observar o tempo pela janela.
A gente reclamava que as 24 horas do dia eram poucas para tantas obrigações. Agora, lamentamos que a semana se arrasta. Com mais tempo em casa, é possível arrumar aquela gaveta que vivia bagunçada, tirar os insetos mortos do lustre da sala, outrora despercebido, organizar a caixa de fotos esquecida no fundo do armário. Reviramos lembranças e levantamos a poeira da saudade.
Para o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar, só o colo acalma esse sentimento de falta. De todos os carinhos, ele é o único que não pode ser produzido sozinho: a gente depende do outro. O colo é um abraço a dois, é acolhimento, abrigo, segurança, conforto. É quando a gente se sente protegido na pele de quem a gente ama e podemos cochilar, sabendo que os nossos sonhos estão protegidos. O colo é a síntese dessa urgência emocional que estamos sentindo no isolamento. É uma necessidade de desmoronar, desabafar, colocar pra fora, recomeçar de novo.
Assim foi o início da entrevista com o autor, numa tarde quente em Fortaleza e num dia frio em Porto Alegre. Uma troca de mensagens por áudio e o diálogo estava pronto. A poesia desse gaúcho transborda do copo e escorre para o guardanapo de papel. Ele fala de amor e da dor do amor como poucos.
Ouça a entrevista com o escritor:
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Para aliviar o coração dos aflitos e dos apaixonados, sempre faz transmissões ao vivo na internet, as quais chama de “consultório sentimental”. Mas para quem tem questões na vida amorosa e não existe um SAC disponível para reclamações, ele criou o “Procon do Amor”, no qual as pessoas podem ter suas dúvidas amorosas respondidas.
"Um abraço ainda é pouco. Um beijo ainda é pouco. O aperto de mãos ainda é pouco. Só o colo mata a enormidade da falta que nos aflige", verseja.
Legenda: "O colo é o lugar mais parecido com o coração fora da nossa caixa torácica", verseja o poeta na obra
Foto: Rodrigo Rocha

Passional e selvagem

Com mais de 40 livros publicados, e mais de duas dezenas de prêmios literários – entre eles o Jabuti, maior honraria nacional dedicada às letras, por duas vezes – Carpinejar chega com mais uma obra, escrita em apenas um mês: “Colo, por favor!” .
“Foi o meu livro mais rápido, o mais intenso, o mais passional, o mais selvagem. Da mesma forma que todos os laboratórios estão tentando encontrar uma fórmula, uma vacina, um contraveneno ao Covid-19, eu, como poeta, tento fabricar essa vacina contra o medo, contra o pânico, contra o caos, contra a insensibilidade", conta.
Ao mesmo tempo, avalia: "Talvez ele tenha sido escrito tão rápido quanto o desmoronamento do mundo que conhecíamos, que a gente nem sabe qual será o próximo mundo ou como nós vamos nos acomodar neste mundo”.
No momento do ponto final da obra, o Brasil havia perdido três mil pessoas vítimas da Covid-19. Agora, enquanto este texto é lido, já passamos dos 50 mil. São 50 mil famílias que perderam 50 mil amores. São 50 mil colos que não puderam ser dados. São 50 mil dores que não puderam ser amenizadas com um abraço.
Legenda: Nos 40 capítulos do livro que evocam a quarentena, o autor mergulha, de cabeça, num mar de sentimentos
Foto: Rodrigo Rocha
“Se a gente dedicasse um minuto de silêncio para o número de vítimas, por dia, no país, ficaríamos o dia inteiro calados", expressa um verso de Carpinejar. Nos 40 capítulos do livro que evocam a quarentena, o autor mergulha, assim, de cabeça num mar de sentimentos.
“O fundo do poço é o essencial da nossa personalidade. Quando a gente chega ao fundo do poço, a gente nem está chorando, a gente está rindo. A gente ri do próprio desespero. E quando estamos no fundo do poço é uma lição, um testamento, um inventário de quem realmente presta ao nosso lado, porque só os amigos verdadeiros descem ao fundo do poço conosco", considera.
"Quem é oportunista, interesseiro, fica na beira das pedras, na beira do poço, não vem conosco. E quem chega até esse lugar, traz a esperança de poder ensinar o caminho de saída para os outros", completa.
Em outra criação presente no livro, o poeta se propõe a definir o sentimento que permeia toda a obra. “O colo é o antídoto da saudade. O colo é o que tranquiliza a ansiedade. O colo é o lugar mais parecido com o coração fora da nossa caixa torácica. O colo é o esconderijo onde podemos chorar à vontade, porque estamos protegidos e livres do medo. O colo é o travesseiro de gente, encostar a cabeça em quem mais amamos para fechar docemente os olhos.”

Regresso

Carpinejar, 47 anos, mora em Porto Alegre, com a esposa e filhos. Devido ao isolamento social, a única forma de estar perto dos pais é de forma virtual. Se quer saber para qual colo ele vai correr quando tudo isso passar – porque vai passar! – a resposta está na ponta da língua: se moverá para dar colo à mãe, dona Maria Carpi, de 81 anos.
Quer pentear os cabelos brancos dela com os pentes das mãos, fazer comida, arrumar a cama e, como um bom gaúcho, dividir um chimarrão. “É preciso repatriar os pais. A gente esquece que os nossos pais, muitas vezes, já não têm mais os seus pais. E eles precisam dos filhos, de vez em quando, cumprindo esse papel, colocando no colo, cantando cantigas de ninar, lendo trechos de livros”, confessa o poeta.
Os pais – por mais que pareçam – não são autossuficientes. Enquanto filhos, podemos oferecer a eles a nostalgia do embalo, o aconchego do colo. E podemos pedir, sempre que necessário: colo, por favor. Afinal, como o autor traz impresso em letras de poema: “O colo é a canção de ninar, a cadeira de balanço, o conforto de um perfume conhecido”.
Colo, por favor! – Reflexões em Tempos de Isolamento
Fabrício Carpinejar
Planeta
2020, 176 páginas
R$ 31,92/ R$ 22,41 (e-book)

Diário do Nordeste

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