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O jovem da remota passeata

O jovem da passeata em pleno viaduto do chá no centro de São Paulo vos saúda e vos deseja um feliz dia
Passeata de estudantes no centro de São Paulo pela anistia e pelas liberdades democráticas em 5 maio de 1977
Passeata de estudantes no centro de São Paulo pela anistia e pelas liberdades democráticas em 5 maio de 1977 (Sergio Sade/ Editora Abril/ Memorial da Democracia)

Ricardo Soares*
Sim, me vejo numa passeata em outro tempo. Talvez no jurássico 1977 quando os estudantes iam para as ruas contra a malfadada lei 477 e levavam borracha nas costas. E tem gente que não sabe, não lembra e não viu. E pede, irresponsavelmente, a volta da ditadura, do AI-5 e de todas as mazelas, torturas e usuras do nefasto regime militar que tentou passar a falsa impressão de que era um sistema incorruptível quando todos sabemos que não.
Sim, me vejo numa passeata de outro tempo olhando para muitos rostos que já partiram e só posso pensar uma coisa em relação aos que estão aqui hoje, aqui e agora. Vocês não sabem o que foi aquilo e eu nunca imaginei que fosse voltar a viver diante da ameaça de tudo aquilo e ainda mais turbinado por uma peste que grassa entre nós diante da indiferença dos que nos desgovernam.
Sim, me vejo nessa passeata de um outro tempo aos 17 anos de idade e diante disso tudo só posso lhes desejar um feliz dia, um feliz mês, um feliz resto de um ano que parece que já termina apesar de dar impressão que sequer começou, se é que vocês me entendem. Com as aulas paradas, as vidas suspensas, as apreensões correndo a solta parece que vivemos todos entre parênteses, deixando a vida verdadeira ali guardada em algum armário de uma memória recente.
O jovem da passeata em pleno viaduto do chá no centro de São Paulo vos saúda e vos deseja um feliz dia, uma feliz vida, um verdadeiro desejo que sigamos construindo planos e erguendo pontes. Que corramos como coelhos atrás de nossas cenouras mesmo que sejamos julgados por cometermos textos que lembrem manuais de autoajuda.
É que na verdade não quero empestear ainda mais o ambiente empesteado. Não quero ficar pensando que as pragas de gafanhotos reais e imaginárias estejam a consumir cada pedacinho bom de nós mesmos que reféns de tanta indignação acabamos por desejar morte lenta e dolorosa a tanta gente abominável.
Sim, me vejo agora na passeata de outro tempo. Ainda sem óculos e sem miopia, ainda sem diabetes e alergias, ainda sem ter desfeito tantos amores e nem ter acumulado rancores. Ainda sem um stent no peito, ainda acreditando que a juventude tudo podia naquilo que nos fortalecia. Eis-me pois agora atônito, mas não cordato.  Estupefato, mas não anestesiado. Ainda a acreditar nos nacos daquele jovem de 1977 que habita em mim. Na passeata de um outro tempo, entre nuvens de gás, relhos e botas de soldados olho para o Vale do Anhangabaú daquela ocasião e me pergunto, vendo agora o comício das diretas-já em 1985: Vale a pena resistir diante de um Vale maior do que esse, repleto de lágrimas? Vale sim tentando a esmo reunirmos os fragmentos de nós mesmos.

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*Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Em pré-venda no site da editorapenalux.com.br o seu novo livro ?Devo a eles um romance?.

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