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Da tristeza à esperança

Pe. Geovane Saraiva*

Como é maravilhoso repetir, mas num profundo júbilo, também na mais elevada reverência, ou no alegre exagero de satisfação: “Ó Deus, sois o meu Deus, desde o raiar da aurora a vós procuro: de vós tem sede a minha alma, por vós desfalece a minha carne, como a terra árida, esgotada e sem água. Assim vos contemplo no lugar santo, para ver o poder e a vossa glória. Porque melhor que a vida é a vossa graça; meus lábios hão de louvar-vos. Assim vos hei de bendizer na minha vida: em vosso nome elevarei as minhas mãos”!

Não podemos jamais nos salvar apenas com nossa responsabilidade coletiva e pessoal. A fé cristã pede destemor e coragem, ensina-nos a pensar na incapacidade da criatura humana, ao aplicar ou atribuir a si mesmo sua realização em Deus, sua salvação. Sabe-se que, pelo pecado, rompe-se a harmônica interação com Deus; sabe-se também que Ele é o fundamento absoluto da realização dos homens e que, sem o elemento da sua graça divina, ninguém alcança a restauração e a paz duradoura. Jesus nos eleva muito acima de nossa impotência e nos oferece o seu Espírito, na feliz consequência do novo nascimento, da vitória sobre o pecado, na vida em Deus.

Mais do que nunca a humanidade precisa acreditar no espírito de reconciliação, mas a partir do gólgota, do horto ou do Monte das Oliveiras, de sua morte, e morte de cruz, no seu gesto maior e supremo. Jesus é preso na hora e no lugar em que se encontra com sua oração em meio ao conflito ou “em angústia mortal”. É o que se sabe que, depois da última ceia, Jesus se retira para o Horto das Oliveiras, vai para um lugar isolado, no declive ou ladeira da cidade. Durante aquela sua oração, consciente da reconciliação humana e com todas as coisas, não fugiu do que lhe ia acontecer e suportar, a ponto de dizer aos discípulos: “A minha alma está numa tristeza mortal” (Mc 14, 34). 

Na angústia mortal de muitas criaturas humanas, associada ao amor infinito de Jesus pelos últimos da sociedade, mas de forma carismática, na incontroversa fidelidade ao Pai, que se percebam a vida, o dom e a graça. Tudo no “seu suor que se tornou como gotas de sangue a escorrer pela face da terra” (Lc 22, 44). Jesus, na oração, talvez a mais linda e que jamais se tenha rezado em toda a terra, afirma na tristeza: “Abba, Pai, suplicava ele. Tudo te é possível, afasta de mim este cálice! Contudo, não se faça o que eu quero, senão o que tu queres” (Mc 14, 36).

Que a promessa de Jesus de Nazaré – o da história e da fé –, que, indiscutivelmente, está vivo e presente no coração das pessoas de boa vontade e no mundo, nos estimule generosamente, no sentido de imitar seu gesto de entrega, com o desejo de um mundo harmonizado, pactuado e pacificado em Deus.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

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